quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

EM DEFESA DA RECICLAGEM TEXTUAL: O QUE EU TINHA PARA FALAR SOBRE O TEMA DE PESQUISA, MAS NÃO COUBE NOS LIMITES DO PROJETO...

Nesta manhã de segunda-feira, solicitei uma folga adicional a minha chefa, a fim de conseguir escrever as doze páginas do projeto de pesquisa exigido para uma seleção de Mestrado que me interessa. Depois de me debater bastante tempo na escolha de um tema atrativo e tendente a uma “subjetivação objetiva” (leia-se: concomitância entre exigências acadêmicas e interesses pessoais), resolvi compor algo sobre um assunto que se tornou objeto reiterado de minhas preferências críticas hodiernas: as ditas pornochanchadas lançadas entre o final da década de 1970 e meados da década de 1980. Era para eu ter escrito 12 páginas, mas me empolguei e, quando dei por mim, já havia escrito 18, de modo que fui submetido à árdua tarefa de suprimir 6 páginas de observações que eu considero importantes. De algumas, eu consegui me desfazer.As demais foram submetidas ao arremedo de artigo (não-corrigido) abaixo publicado:

A ausência marcante de indicações bibliográficas acerca do período estudado configura não apenas uma dificuldade metodológica como um elã investigativo, no sentido de que impulsiona a exegese da investigação sobre recorrências estilísticas, paroxismos discursivos e elementos de adequação à configuração cultural nacional de época contidos nos filmes do período. A combinação de pretextos eróticos, citações referenciais, mixórdias musicais eruditas e nudez considerada gratuita nos filmes dá o tom de uma delimitação artística em que o sexo surge como elemento fortemente psicológico, em que a sua exacerbação ou, como é muito mais comum, repressão em prol de um tabu, justifica os comportamentos neuróticos ou neurastênicos de personagens que, por sua configuração, não devem nada àqueles criados por Pier Paolo Pasolini, Walter Hugo Khouri ou Bernardo Bertolucci, apenas para ficar em três exemplos directivos reverenciados pelos cineastas da chamada Boca do Lixo.

Com a extinção da Embrafilme, pelo presidente Fernando Collor de Mello, em 16 de março de 1990, as polêmicas, divergências e desentendimentos envolvendo a qualidade dos filmes produzidos pela chamada Boca do Lixo paulista tornaram-se mais acirrados. Afinal de contas, na época em que o principal financiamento estatal do cinema brasileiro foi extinto e quando era obrigatória a exibição de filmes nacionais pelos exibidores cinematográficos, os únicos cinemas que estavam quites com as suas obrigações legislativas neste sentido eram justamente aqueles que exibiam filmes pornográficos, cujos temas também já estavam em colapso após a invasão de pornografia estrangeira e a difusão do videocassete, que deixou mais evidente o oportunismo masturbacional íntimo (no mal sentido do termo) dos espectadores, que desprezavam os enredos elaborados dos filmes lançados após 1985, ao contrário do que ocorrera nos tempos áureos da produtora DaCar, comandada pelo astro David Cardoso.


Partindo-se do pressuposto de que “num mundo em rápida transformação, o homem perdeu a possibilidade de viver na sua terra natal, ou a esta retornar, pois a cidade em que nasceu se transforma a cada dia que passa, e todos sabemos que o amanhã não será igual ao ontem” (LEITE, 1992: 18), convém averiguar até que ponto os filmes genericamente afixados ao rótulo impreciso das pornochanchadas é delimitador de um caráter nacional essencialmente brasileiro e, assim sendo, produzam um discurso de restauração dos valores produtivos periclitantes de uma indústria cinematográfica essencialmente nacional e, como acontece em vários outros países, oprimida pela competição estrangeira.

Dentro desta hipótese mais geral, diversas atividades correlatas de pesquisa devem ser requisitadas, conforme evidenciado nos objetivos deste projeto, sendo estas: a verificação ideológica dos fundamentos conteudísticos e formais dos dois principais filmes aqui estudados, a análise dos detratores e seguidores da polêmica antagônica promulgada pelo crítico Paulo Emílio Salles Gomes acerca da superioridade essencial do cinema brasileiro sobre o estrangeiro enquanto demonstração de qualidades essencialmente nacionais, a interferência do contexto político da época na escolha dos temas eróticos filmados bem como na maneira como estes eram vendidos ao público; e a necessidade de restituir as deficiências de análise relacionadas a este período (quantitativa e também qualitativamente) profícuo da cinematografia brasileira.

Segundo o estouvado raciocínio de um jornalista da época, Matinas Suzuki, o corporativismo complacente, a ausência de espírito crítico, a reserva de mercado e o pânico total de correr riscos no mercado só poderiam redundar num cinema frouxo e estéril (‘apud’ SOUZA, 1993: 54), críticas ácidas estas que atingiam em cheio também as sobras de pornochanchada que ainda eram produzidas.

A agonia do cinema brasileiro acentuou-se após o fechamento da Embrafilme e só pareceu emitir sinais de mudança positiva em meados da década de 1990, quando “mudanças políticas nacionais ocasionaram mudanças significativas no panorama cultural e, conseqüentemente, cinematográfico do país” (NAGIB, 2002: 14), engendrando a nomenclatura geral – e, para muitos cineastas, imprecisa – de Retomada do Cinema Brasileiro, alavancada, entre diversos motivos pela chamada Lei do Audiovisual, datada de 1993, que aperfeiçoava as leis anteriores de incentivo fiscal.

Mas isso já é outra história...

Wesley PC>

2 comentários:

deco disse...

Wesley,
Minha sorte é que em 1981, com meus hormônios ainda em ebulição, estava completando 18 anos e concomitantemente houve a liberação de filmes totalmente explicito para maiores de idade. Que presente!
Neste começo da década de 80, o mercado já estava dominado pelos filmes importados de sexo explicito. Aqui,diretores e produtores já não conseguiam sucesso de bilheteria só com as pornochanchadas (comédias eróticas) ou com os dramas eróticos. Muitos desses profissionais aderiram ao gênero explicito. Na época, com a febre desse comércio do sexo, cabia aos espectadores decidirem em assistir um filme de sexo simulado ou apreciar um filme com sexo explicito. Covardia, não?
Vários atores, assim como os diretores e os produtores, também fizeram a passagem do cinema “convencional” para o explicito. Jaime Cardoso, Ronaldo Amaral, Oswaldo Cirino e Paulo Prado são alguns exemplos de atores. Quanto aos diretores lembro-me de Claudio Cunha, David Cardoso (com seus vários pseudônimos) e Alfredo Sternheim. Este último, talvez seja o meu preferido. Alfredo resistiu muito a entrar na onda do explícito, mas como disse no livro UM INSOLITO DESTINO – ALFREDO STERNHEIM: “Afinal, me perguntei, o que há de errado em mostrar seres humanos fazendo sexo, com suas genitálias em atividade.” Entrou...

Gomorra disse...

Conheço pouco sobre o Alfredo, mas já o incluo na lista de diretores subestimados a serem buscados e admirados...

Wesley PC>