sábado, 4 de fevereiro de 2012

“NÃO ERA ASSIM QUE ESTAVA: NÃO ERA MOLE E, POR DENTRO, HAVIA UM PÊNIS!”


(risos)

Acabei de assistir aos dois primeiros episódios da primeira temporada da cultuada série da HBO “Segura a Onda” (tradução nacional para “Curb Your Enthusiasm”), lançada em 2000. Não é uma série que me agradou em particular, em razão de suas tramas serem protagonizadas por pessoas rocas e influentes que se dedicam sobremaneira à aquisição de bens materiais, mas, por outro lado, bem que eu podia gostar bastante dela, em razão da identificação faceira com muitos dos mal-entendidos que justificam os episódios.

O protagonista da série é Larry David, co-criador do famoso ‘sitcom’ “Seinfeld”. Velhaco e um tanto insuportável, este ator/personagem tem uma capacidade singular de se meter em confusões idiotas por onde passa. No primeiro episódio, por exemplo, uma elevação de tecido na calça que Larry utiliza cria um desnecessário mas engraçado constrangimento com a amiga de sua esposa que o acompanha numa sessão de cinema e alisa o seu braço depois que ele discute com uma mulher atrevida que não o deixa atravessar uma fileira de cadeiras por insinuar que ele estaria olhando para os seus seios. Quando chega em casa, Larry conta à sua esposa que sua amiga creu que ele tivera uma ereção por causa dele e acrescenta que brigara com a namorada de Jerry Seinfeld, mas esquece de dizer que fora obrigado a pedir desculpas aos pais judeus de seu agente por apelidar a própria esposa de Hitler e desencavar a memória traumática de um primo ‘gay’ que fora obrigado a escapar da Alemanha nazista durante a década de 1940. Como se vê, é um amontoado de besteiras, mas é engraçado assim mesmo. Esse tipo de mal-entendido vive acontecendo comigo lá no trabalho (risos)...

Não me tornarei um seguidor fiel da série, reexibida desde a primeira temporada no canal fechado HBO Signature, mas confesso que me identifiquei deveras com alguns pantins difíceis de resolver. A quantidade de vezes em que o protagonista precisou se desculpar nos dois episódios recém-vistos tem muito a ver com as situações em que eu me envolvo por “falar demais”. Na pior das hipóteses, verei um ou outro episódio de “Segura a Onda” sempre que precisar de um tantinho de terapia pós-burocrática (risos). Se eu não alimentar muitas expectativas espectatoriais, pode ser até que funcione!

Wesley PC>

“A SABEDORIA ENQUANTO TAL NOS REVELA O NEXO DAS COISAS COMO SENDO O VAZIO DELAS” (p. 204)

Como escreveria um amigo (ou alguém que eu desejaria que fosse), “terminei!”. Após uma semana complicada e derrotista, que fez com que eu me demorasse bastante nas 215 páginas de auto-atrapalhação do livro mostrado na foto, finalmente cheguei ao fim, de “Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto”, lançado em 2010 pelo filósofo e médico Luiz Felipe Pondé. E, francamente, apesar de algumas passagens mais inspiradas, o livro é um fiasco de tão ruim. Para piorar, o exemplar lançado pela editora Leya é entupido de erros de digitação, de concordância, de ortografia, uma vergonha literária segundo os padrões ético-formais que o autor finge combater desde o título. Mas quem sou eu para reclamar disso agora? Se eu li este livro com avidez (apesar da demora cronológica), motivos diversos contribuem para isso: primeiro, a afeição exaltada de um amigo íntimo heterossexual ao suposto pessimismo do autor; e segundo, a identificação eventual com alguns dos elementos de derrotismo que o Luiz Felipe Pondé enumera como corolários do ser humano. Sentia-me derrotado enquanto lia o livro. E, por sorte, a intenção dele não era me consolar:

Os minutos de beleza são fruto da coragem de resistir ao mundo que é mais afeito às baratas do que aos humanos. Uma beleza restrita aos desgraçados. Encanta-me uma ética que brote dessa desgraça.” (p. 143)

Ao longo dos artigos compilados neste livro, nem sempre coesos entre si, apesar da repetitividade de sua coerência, o autor se confessa relutante em diferenciar moral e ética, como o fazem outros filósofos, afirma que as ruínas do conhecimento e da liberdade, metaforizadas pelas figuras mitológicas das moiras, estão no fundo de tudo o que ele pensa, vitupera seu ódio contra as pessoas que freqüentam ou organizam “jantares inteligentes”, e, na última página, reconquista-me por alguns instantes ao se autodefinir como um ateu que passou para a condição de não-ateu (ainda que não necessariamente religioso) através da seguinte avaliação: “sou apenas alguém que, até hoje sem saber a razão, passou a ser constantemente visitado – no sentido mais comum que a expressão tem, por exemplo, na tradição do cristianismo ortodoxo – pela sensação de que o mundo é sustentando pelas mãos de uma beleza que é também uma presença que fala”. E isso é Deus!

Enviei uma frase do livro como mensagem de celular para quatro amigos do sexo masculino, minuciosamente escolhidos: um deles é alguém por quem sou apaixonado; o outro é alguém por quem eu me apaixonaria se me fossem ofertadas as devidas chances; o terceiro é alguém com quem pratico atividades parassexuais salvaguardadoras há quase uma década; e o quarto é o rapaz que comprou e me emprestou o livro, recém-divorciado e lidando com o fato de estar se envolvendo com uma mulher que periga repetir os mesmos erros e opressões capitalistas e conjugais de sua antiga esposa (ou até piorá-los, em minha avaliação pessoal intrometida). Apenas um dos destinatários respondeu à mensagem, defendendo mais uma vez o autor. No momento em pauta, eu via um filme do Eric Rohmer, sobre um pequeno-burguês moralista que não consegue lidar com a licenciosidade erótica de uma moça com quem convive numa casa de veraneio. Ele se apaixona por ela. Ela é apaixonada por praticamente todos os homens, ao mesmo tempo. Ele deseja que ela lhe seja exclusiva. Ela o abandona no meio de um passeio, para sair com outros rapazes. Ele resolve viajar para outro lugar. “Algumas pessoas passam mais de 40 anos trabalhando para conseguirem uma vida de lazer. Quando finalmente a conseguem, estão tão cansadas e perdidas, que não sabem o que fazer com ela”, diz o protagonista. Eu receio concordar. Por isso, mesclo prazer e trabalho numa mistura que nem sempre é socialmente palatável para outrem.

Tudo isso me conduz a um parágrafo derradeiro em que eu admito o porquê de este livro ter me afetado de alguma forma, para além de seus evidentes defeitos formais: apesar de o autor ser um mulherengo que recai muitas vezes em julgamentos senso-comunais sobre as pessoas senso-comunais, duas formulações geniais de sua ética individual me chamaram a atenção. Na primeira delas, ele prediz: “sempre parto do princípio de que serei um derrotado ao final, pouco importa o que eu faça. Nesse sentido, a autoconfiança tem em mim o mesmo efeito dos odores que emanam dos corpos dos necrotérios: o cheiro de um sonho risível de futuro” (p. 137). Como já deve ser sabido de todos os que acompanham este ‘blog’, este apotegma tem muito a ver comigo, não apenas num sentido genérico como também em reação a um mote bastante específico: recentemente eu participei da seleção trifásica de um programa de Mestrado. Na primeira fase, a prova escrita, tirei as maiores notas de toda a turma. Fui o único dos inscritos a receber uma nota 10,0 de um dos avaliadores. Entretanto, nas duas fases seguintes, fui tripudiado: na segunda fase, a avaliação do projeto, disseram que o meu tema (“vendabilidade e contestação política nos filmes produzidos pela Boca do Lixo na primeira metade da década de 1980”) não se filiava às linhas de pesquisa do mestrado; e, na terceira fase, a entrevista, fui tripudiado, não de todo injustamente, já que me confundi bastante na justificativa de minha adesão metodológica a parâmetros feyerabendianos. Em suma, me estrepei, caí do cavalo, o que me conduz diretamente à segunda formulação do autor, esta sim, prenhe de consolo: “quando falamos em ciências humanas – ciências quase inúteis e de resultados dúbios –, o mérito então desaparece e, em seu lugar, resta mediocridade, corporativismo, repetições que mimetizam produtividade em termos numéricos e quantificáveis. Tudo a serviço de disputas miseráveis dos pequenos poderes institucionais” (p. 178). E, com todo o fervor passional que ainda existe em meu coração acadêmico, dedico tudo o que é sentimentalmente evocado nesta postagem aos quatro amigos do sexo masculino a quem direcionei a mensagem de celular anteriormente descrita. Não mencionarei seus nomes aqui, mas eles sabem quem são. Ah, eles sabem. Não é à toa que eu os amo, aliás! A cada um dos quatro, como se eu próprio fosse uma personagem feminina do Eric Rohmer...

Wesley PC>

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

EU CHEGUEI ATÉ AQUI?

Acabo de ser sabatinado por um trio de professores no que tange à adequação de meu projeto a uma dada linha de pesquisa de Mestrado. Segundo eles, o tema que eu desejo estudar (a pornochanchada brasileira) não tem a ver com o que eles ofertaram à comunidade. Apesar de ter obtido nota máxima na prova escrita, corro o risco de ser desclassificado por inadequação teórica ou algo parecido. Se alguém inventar a outra vida, eu imito o alter-ego do Tom Zé e invento a resignação. Minha co-orientadora psicanalítica disse que eu deveria ser firme sem ser arrogante e flexível sem ser subserviente. Creio ter falhado em todas as exigências: gaguejei, me rendi, equivoquei-me fortemente no que tange à adesão ao método feyerabendiano de pesquisa, desperdicei meu tempo, minhas angústias, a atenção alheia, a confiança depositada, a vontade de continuar, ponto de interrogação. Ter esperança é algo perigoso. Ser impotente também. Desistir antes do tempo mais ainda. Desistir em qualquer momento mais ainda! Desistir não pode. Desistir não. Desistir...

Wesley PC>

OFICIALMENTE, ESTOU INDO DORMIR!

Gosto muito de pastéis de queijo. Como meu colesterol é alto, sempre que exagero no consumo desta fritura, ingiro uma maçã em seguida. Atenua a azia subseqüente. Hoje à noite, enquanto lia um artigo de Wilhelm Reich sobre as características desviantes do homossexualismo e sua inexistência nas sociedades primitivas que fazem uso da sexualidade livre, comi mais de 10 pastéis. Não tinha maçã em minha casa e, como substitutivo gastro-higiênico, ingeri uma banana. Não funcionou: estou com azia!

Tentei diminuir os efeitos incômodos desta azia tomando água, muita água. No chão do banheiro, minhocas crescem. Talvez haja um ninho de ratos debaixo de minha estante de CDs. Tentei baixar um disco de música ‘pop’ pela Internet e me deparei com o aviso do FBI mostrado na imagem anexa a esta postagem. Minha mãe, meu irmão e meus cachorros dormem nos quartos e, enquanto tudo isso acontece, tento memorizar o trecho de um livro coletivo chamado “Economia da Arte e da Cultura”:

“A indústria cultural é uma área da produção social no capitalismo avançado que deve cumprir uma dupla condição de funcionalidade, a serviço do capital individual monopolista em concorrência (função publicidade) e do capital em geral, ou do Estado (função propaganda), servindo como elemento-chave na construção da hegemonia. Para isso, deve responder também a uma terceira condição de funcionalidade (função programa), ligada à reprodução simbólica de um mundo da vida empobrecido em suas condições de autonomia” (César Bolaño – “Economia Política da Comunicação e da Cultura: Breve Genealogia do Campo e das Taxonomias das Indústrias Culturais” – 2010 – página 45.)

Se eu conseguir repetir isto, do jeito como foi escrito, talvez eu seja feliz às 9h40’ desta quinta-feira. Se eu não conseguir, concordo com o que foi escrito: não há como refutar a veracidade intelectual manifesta através de um aguçado ponto de vista!

Wesley PC>

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

“É MESMO UMA MERDA ESTA DEMOCRACIA: ATÉ PUTA ACHA QUE PODE TER DIREITOS!”

“Cuidá dum pé de milho
Que demora na semente
Meu pai disse: ‘meu filho, noite fria, tempo quente’

Lambada de serpente
A traição me enfeitiçou
Quem tem amor ausente já viveu a minha dor

No chão da minha terra
Um lamento de corrente
Um grão de pé de guerra
Pra colher dente por dente

Lambada de serpente
A traição me enfeitiçou
Quem tem amor ausente já viveu a minha dor”

(“Lambada de Serpente” – Djavan)

A canção acima estará eternamente associada ao filme cujo quadro de abertura é mostrado na fotografia. Em comum, filme e canção têm o fato de terem sido lançadas exatamente no mesmo ano: 1980. Não fiz esta associação propositalmente. Ouvi o disco “Alumbramento”, do qual a referida canção faz parte, inúmeras vezes antes de a sessão do filme começar. Terminado o filme, fiz questão de novamente ouvir o disco. Um compasso de melancolia une ambos os produtos artísticos, bem como algumas das intenções espectatoriais que eu aqui destaco. “Rapaz, melancólico, mas bom sim. Valeu a dica”: escreveu-me um amigo de trabalho ao final do filme. Por dentro, eu sorria: é um mundo injusto, mas cabe a nós enfrentá-lo”!

No filme, uma rapariga de nome Encarnação chega ao bordel titular onde trabalha a sua mãe Dolores. Neste local requintado, os desejos e taras bizarras dos clientes são a prioridade satisfatória. Uma das prostitutas é noiva. Outra delas é crente. Uma terceira finge-se de colegial. Todas juntas resolvem declarar greve quando se sentem exploradas pela patroa. Encarnação tem sua virgindade leiloada como solução para o conflito de interesses políticos básicos ostentado pelo extraordinário roteiro do diretor Ody Fraga. E, por dentro, eu sorria... Meu amor ausente se fazia presente na janela de minha imaginação refletida!

Wesley PC>

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

UMA PEQUENA VITÓRIA, UM GRANDE MERGULHO: “OS MENORES PRECISAM SER MEDIDOS”!

Nesta tarde de terça-feira, recebi uma notícia maravilhosa: estive entre os 15 selecionados para a fase seguinte de um processo seletivo para Mestrado que muito me interessa. Faltam ainda duas etapas e há a possibilidade de eu não ser exitoso, mas estou satisfeitíssimo por ter galgado este primeiro degrau. Foi como se eu tivesse sido bem-pago pela tentativa. Desde já, portanto, agradeço!

Imbuído deste sentimento mútuo de contenteza por ter sido aprovado na primeira de três etapas e, ao mesmo tempo, apreensão pelas exigências vindouras, assisti a um belo filme mexicano que metonimizava bem o que eu estava a sentir: “Ao Mar” (2009, de Pedro González-Rubio). Não conhecia nada, absolutamente nada sobre este filme. Sequer sabia que o mesmo seria exibido. Liguei a TV no primeiro canal e lá estava ele, sinalizando para mim. Não me arrependi nem um pouco de ter reagido positivamente a este sinal: o filme é absolutamente encantador!

Na trama do filme, um pescador mostra a seu filho de cinco anos, que vive com a mãe italiana, a rotina de seu trabalho diário. Mergulha com ele num local entulhado daquilo que chamamos natureza: corais, caranguejos, garças, crocodilos, seres humanos, lagostas, peixes de todas as espécies. Tudo interage com pai e filho, que também respondem com interação. O pai, entretanto, é pescador: mata peixes e os descama, mas o faz de forma tão deferente e respeitosa que as leis que regem a cadeia alimentar (refogada pelo capitalismo infelizmente circundante) parecem compreender, justificar, defender e validar as suas necessidades sobrevivenciais. E o filho aprende, aprende muito. Aprende porque deve selecionar as lagostas maiores antes das menores e como se faz para atrair a atenção de uma garça sem assustá-la. Aprende a amar um pai que não vê há algum tempo. Aprende que homem e meio ambiente não se anulam, como fazem pensar alguns esbanjadores alegadamente progressistas. E faz questão de compartilhar tudo conosco, que penetramos no filme através de uma câmera magistralmente documental. Fiquei apaixonado pelo filme: era como eu me sentia!

Wesley PC>

DA ARTE DE FAZER PLANOS E SOBREVIVER A ALGUNS DELES!

Ontem à noite, eu havia marcado para ver um filme antigo (e erótico) do Paul Verhoeven com um amigo progressivamente interessado em sexo. A nova namorada dele – que eu ainda não conheço, apesar de terem transcorrido mais de três meses desde que ele se tratam como “meu amor” – precisou que ele fosse buscá-la num determinado lugar e ele me telefonou, protelando nossos planos. Ao invés de ver o filme, portanto, algumas horas depois do telefonema eu me vi ajoelhado diante de um rapaz que usava uma grossa bermuda ‘jeans’ enquanto assistia a uma série animada televisiva no computador. Adaptar-se aos novos planos faz parte da vida (e das teorias de Edgar Morín também)!

Em dado momento da minha noite de ontem, fui dominado pelo receio de incomodar o meu interlocutor assimétrico quando eu beijei o seu couro cabeludo com o rosto embebido de seu sêmen. Temi que ele se incomodasse em ser melado com seu próprio colóide orgástico, visto que não pude sorver todas as gotas que ele ejaculou. Algumas foram derramadas sobre suas ancas e, ao invés de eu lambê-las com fúria desejosa, preferi esfregá-las em minha face, com uma fúria ainda mais desejosa. De certo modo, eu o amava. Do modo certo, eu o amava. Como se houvesse um modo certo no que tange ao amor. E pensar que, minutos antes, eu lia um vitupério do filosofo de “auto-atrapalhação” Luiz Felipe Pondé contra o amor respeitoso, dizendo que isso vai de encontro ao que se realmente se sente: quem disser que ‘amar é querer o bem de quem ama’ é porque nunca amou. Amar é querer o outro para si ou querer que o outro deixe de existir. Isso é ‘querer comer’ o outro”, diz o filósofo, que, mais tarde, num mesmo artigo, acrescentaquando amamos e desejamos alguém, violamos”. Eu obviamente discordo radicalmente de tudo isso. Eu amo e respeito o outro e sinto como já tivesse amado sim. Ponto.

Não cheguei em casa tradicionalmente satisfeito (no sentido organicamente provisório do termo), como sói acontecer em situações similares envolvendo o mesmo rapaz, porque contingências cronológico-familiares obrigaram-me à subsunção derradeira de uma masturbação feroz e quase técnica, não obstante também provida de paixão, desejo e “amor respeitoso”. Eram novos planos. Hoje eu tenho outros: o meu amigo vai quererá ver o filme de ontem, mas, como é aniversário de sua filha pequena, preferirei que ele esteja com ela. Na TV, será exibido “Palácio de Vênus” (1980), filme de meu divo roteirístico Ody Fraga que ainda não vi. Meus planos hoje são diferentes – e, ao mesmo tempo, tão parecidos...

Wesley PC>

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

FALTA O DEDO INDICADOR!

Acabo de me emocionar ao rever a cena mais famosa do clássico “Paisagem na Neblina” (1988, de Theo Angelopoulos). Emocionar-me de verdade! Quase chorei, juro! As lágrimas chegaram às fronteiras de meus olhos. Não apenas porque o filme é lindo, porque a trilha sonora é soberba, porque me identifico com aquela busca e aquele abandono, mas porque doeu forte saber que o diretor deste filme maravilhoso morreu na última terça-feira, 24 de janeiro de 2012, aos 76 anos de idade. Não de velhice ou de complicações relativas a qualquer doença. Morreu atropelado por uma motocicleta. E um gênio se foi. Parece até cena triste de um de seus filmes. O que, definitivamente, não serve de consolo...

Wesley PC>

domingo, 29 de janeiro de 2012

UMA NOVA (E DELETÉRIA) MUDANÇA ESTRUTURAL DA ESFERA PÚBLICA?

Conforme anunciado anteriormente, saí de casa para ver um bom filme na casa de um amigo e, quando retornava para o meu lar, encontrei um amigo que não vi faz tempo num terminal de ônibus. Conversamos sobre estresses pós-traumáticos, maconha associada a antidepressivos e, quando ele viu que eu estava com o livro “Economia Política da Internet”, do César Bolaño, nas mãos, perguntou como eu traduzia os ensinamentos adornianos para o contexto contemporâneo de explosão tecnológica. Respondi-lhe que, coincidentemente, esse era o tema do livro e debatemos sobre o assunto até que meu ônibus finalmente chegou e eu fui para casa.

Ao chegar, sou informado por minha mãe que o botijão de gás acabou. Comi um parco prato de comida gelada e sentei-me no sofá para estudar um pouco sobre o conceito habermasiano de “mudança estrutural da esfera pública”. A TV estava ligada e, como eu não queria prestar atenção em nada, deixei num canal-mosaico disponibilizado pela Via Embratel, que apresentava quatro câmeras simultâneas do programa Big Brother Brasil 12, exibido pela TV Globo e, obviamente, não assistido por mim. Volta e meia eu punha os olhos na TV e algo me chamava a atenção: fiquei assistindo ao desenrolar do tal programa até as 3 horas da madrugada. Cabem, portanto, algumas confissões sobre a minha ambígua e problemática relação com este programa.

Ao contrário de alguns intelectuais esbravejantes, eu evito me desgastar em vitupérios contra o programa. Condenável em sua essência e proposta, tenho uma raiva muito pessoal e direcionada contra ele em razão de seu estímulo hipócrita, comercial e setorial a alguns aspectos da escopofilia que, noutros contextos sociais não-midiáticos, são fortemente condenados. Sinto-me particularmente traído sempre que vejo alguém assistindo a este programa e irritado quando eu admito que espiono as pessoas tomando banho, por exemplo. Ou seja, apesar de detestar o programa, eu sou um de seus espectadores ideais, visto que sinto a necessidade de observar o comportamento alheio na integralidade de seus tempos mortos, inclusive. Como admito este paradoxo espectatorial o tempo inteiro, prefiro calar-me no que tange às obvias opiniões depreciativas sobre o mesmo. Até que me vejo refém da audiência como fiquei de ontem para hoje!

Conforme dito, fiquei acompanhando alguns lances do programa até as 3 horas da madrugada. Acordei às 9h e o meu primeiro impulso foi ligar a TV no mesmo canal para saber o que estava acontecendo. O canal-mosaico em pauta não faz parte do meu pacote de TV por assinatura, mas está liberado neste final de semana, a fim de liberar ou recriar tentações como esta que confesso agora. Jamais me atreveria a pagar por isso. Não porque eu não goste (abre e fecha aspas póstumas neste termo), mas porque, insisto, me sinto traído pelo conceito e pela execução do programa. Nos episódios conferidos durante as minhas três (ou mais) horas de audiência, pude sentir isso na pele: estava acontecendo uma festa. Diversos participantes paqueravam-se e rejeitavam-se entre si. Um deles estava enlouquecido por uma dada mulher, que, depois de dançar com ele por muito tempo, foi dormir, desdenhado de sua atenção erótica. Ele bate na porta do quarto dela, tenta convencê-la a conversar com ele, mas ela quer dormir. Ele fica emputecido de raiva, sai xingando-a em alto e bom som (“filha de uma puta. Quem ela pensa que é para mandar em mim?”) e se despe com violência. Fiquei animado (“ôba, vou ver um homem nu na TV!”), mas, de repente, nenhuma das quatro câmeras se dispôs a filmá-lo se despindo. A transmissão da imagem de seu quarto foi interrompida abruptamente e, de repente, duas das quatro câmeras mostravam exatamente o mesmo ponto de vista de outro local, onde outros participantes conversavam sobre futilidades do jogo. Momentos depois, uma câmera volta a acompanhar o tal participante, quando ele volta a bater no quarto da mulher dorminhoca, que desta vez consente em deixá-lo entrar. Conversam por alguns instantes, deitam-se, ela dorme, ele sai da cama, senta-se no chão (apenas de cueca), chora um tanto e, cinco minutos depois, enfia a mão em sua cueca, com o evidente intuito de masturbar-se e desafogar a sua fúria excitada. De repente, uma estridente campainha soa e interrompe tanto o ato dele quanto o sono dela. Foi aí que eu percebi: masturbação é proibida no programa!

Noutra situação, um dos participantes urina de porta aberta enquanto conversa com uma amiga, que o observa durante o ato. A campainha soa novamente, chamando a atenção deles. Ela percebe e comenta a proibição, de modo que ele fecha a porta com rapidez. A pseudo-naturalidade que é vendida no que tange a esta versão “fechada” do programa, em contraposição à montagem ficcional da versão em TV aberta, é puramente falaciosa. O programa é nojento, séptico, disfuncional, prejudicial, abominável em mais de um sentido. Mas, ainda assim, eu me via atraído por ele. Fiquei preocupado com isso, inclusive, por admitir isso e insistir nisso. Despertei e fui ler um pouco mais sobre a mudança estrutural da esfera pública no final do século XVII, tentando comparar as alegadas limitações teóricas da tese de Jürgen Habermas com as manifestações hodiernas do mesmo problema, em que a diluição das fronteiras discursivas entre público e privado deixa de ser um potencial fórum de debate crítico-racional para se render, com a comercialização maciça dos (produtos dos) meios de comunicação de massa, a apenas mais um domínio de consumo cultural, esvaziado de suas possibilidades societais e históricas mais amplas. A esfera pública de hoje é burra! E eu, em vez de estar dormindo, estava alimentando-a, dando-lhe trela, pervertendo-me. Assumo a minha culpa como componente gnosiológico-estatístico, portanto!

Wesley PC>