quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

COMO SE EU FOSSE CRIANÇA DE NOVO...

Na orelha esquerda da edição de “Cine Privê”, livro de contos do escritor sergipano Antonio Carlos Viana lançado em 2009 pela Companhia das Letras, há um encômio que afirma que o tema da perda, especialmente sob o olhar infantil, é o assunto mais recorrente nas estórias ali reunidas. Mesmo sem ter lido este encômio até chegar perto do final do livro, já concordava com ele: em cada um dos 20 contos ali reunidos, há alguém sendo obrigado a desfazer-se de algo. Seja da própria vida, seja do cabrito de estimação, seja da prostituta que mais admira, seja de um ente querido, seja de um bem material que proporcionava conforto em dias de amargura, seja do hímen cuja visão era apresentada como pagamento para um demorado tratamento odontológico...

Apesar de eu achar que o tom em primeira pessoa de alguns dos contos é repetitivo em comparação com outros, narrados sob o ponto de vista de um personagem completamente diferente, no geral, o saldo literário deste compêndio emociona. Por mais que eventualmente discordemos de um ou outro julgamento narrativo intra-diegético (e, em minha opinião, um bom autor é aquele que consegue causar esta discordância e, ainda assim, chegarmos ao final do conto satisfeitos com a autenticidade do narrador-personagem), a elipse geralmente conclusiva com que o contista dispara as perdas e consolações enfrentadas pelos personagens encantam e emocionam, em especial quando vivenciados por uma criança. Que o diga a seguinte reflexão, que encerra um dos últimos contos: “quando voltei do banheiro, o enterro já havia partido e eu fiquei ali sozinho, no meio das flores murchas, aturdido não com a morte, mas com a vida escorrer de nosso corpo”. Tão lindo isso, queria que tanta gente que conheço lesse...

Engraçado é que, entre um conto e outro, já perto do final, dei uma pausa a mim mesmo e assisti ao gracioso curta-metragem de Abbas Kiarostami “Pão e Pista Estreita” (1970), em que um menino tem medo de atravessar uma rua por causa de um cachorro, sem imaginar que tudo o que este último deseja é um pouco de camaradagem. E o final cíclico e interruptivo tem muito a ver com o tom dominante nos ótimos contos de Antonio Carlos Viana...

Difícil escolher agora os meus preferidos, mas citarei a nostalgia romântica e desejosa de “Eliazar, Eliazar” (em que uma garotinha apaixona-se pelo primo tímido e de cabelos loiros e compridos que se suicida ainda adolescente), “Esperanza” (em que um menino ganha uma ereção e perde a bicicleta ao observar aquela que pensa ser a rumbeira ruiva que o fascina fazer sexo com um trabalhador braçal de circo) e “‘Moonlight Serenade’” (em que as canções saltitantes de Glenn Miller traumatizam mais uma jovem molestada na cadeira do dentista do que o primeiro contato com o gosto de sêmen imposto por outrem). Só estas três preciosidades já tornam o livro digna da antologia elogiosa que fez com que este livro finalmente chegasse às minhas mãos, depois de vários meses imaginando a que se referia o título, que também batiza um dos contos do livro, em que o faxineiro de um cinema pornográfico frustra-se com a incompreensão celibatária de sua esposa evangélica, para ficar num exemplo mais direto. Tive uma divergência de opinião em relação à condução narrativa deste conto, mas ele é também admirável, como todo o resto. Agradeço, portanto, ao meu amigo Tiago por ter me emprestado o tal livro e à minha amiga Ninalcira por me apresentar a causos reais que muito se assemelham ao universo deste livro: aos dois e ao inteligente autor do mesmo, muito obrigado!

Wesley PC>

2 comentários:

tatiana hora disse...

nossa, eu preciso muito ler esse livro.
certeza que ia adorar!
:*

Pm Lancaster Vince disse...

aturdido não com a morte, mas com a vida escorrer de nosso corpo... Me sinto aturdido, me sinto sim. Ontem escrevi muito e não consegui publicar aqui nos recados. Beijos, Estou com esse neo blog para contar o que vejo diariamente. Acho que gostará da estória de hoje.