sábado, 12 de fevereiro de 2011

QUE FRASE DE “O LEÃO NO INVERNO” TEM MAIS A VER COMIGO HOJE?

“O Leão no Inverno” (1968) é um filme britânico dirigido pelo discreto Anthony Harvey, famoso entre os cinéfilos por ter sido o filme que proporcionou o terceiro dos quatro prêmios Oscar de Melhor Atriz que foram concedidos à enérgica Katharine Hepburn. Apesar de famoso, porém, é um filme que sempre me pareceu demasiado árduo: sua trama é passada no século XII e aborda as crises familiares de uma família régia, cujo rei dorme com uma rapariga francesa muitíssimo jovem, enquanto a rainha é feita prisioneira num castelo há 10 anos e seus três filhos ainda vivos digladiam-se no afã por serem nomeados para a sucessão real. Em outras palavras: as intrigas palacianas aqui retratadas aparentemente seriam dramaturgicamente árduas e de difícil identificação com as vidas problemáticas de espectadores contemporâneos. Ledo engano! Além de ser uma obra-prima minuciosa, três frases do filme ficaram ecoando em minha mente, antes, durante e após a sessão, justamente por terem tanto a ver com o modo como me sinto hoje:

* “Afeto é o tipo de pressão que eu ainda consigo suportar”: assim diz a rainha Eleanor de Aquitânia quando desce da embarcação em que era conduzida e suplica um abraço de seus filhos ou da amante de seu marido, por quem sente muito apreço, visto que a criara desde pequena. Os requisitados neste abraço, entretanto, a evitam, demonstram um desdém pungente por ela, recusam o seu direito básico de mãe carinhosa e logo a obrigam a se meter num emaranhado de intrigas cruzadas a fim de que ela e o rei Henrique II disputem seus interesses filiais no que tange á sucessão do trono inglês;

* “Para que indagar se o ar é puro, se isto é tudo o que temos para respirar?”: por várias vezes, o rei Henrique II titubeia durante a violentamente verborrágica disputa de seus filhos e tenciona resignar-se nos braços de sua amante, mas os clamores extra-familiares das escolhas políticas que é ele é obrigado a fazer impedem-no de resfolegar clementemente no seio de sua amada. E, quanto mais o extraordinário roteiro de James Goldman evolui, menos parece que seu périplo de amarguras terá fim;

* “Qual família não tem seus altos e baixos?”: e quando eu pensava como defender este filme magnífico dos temores pessoais mencionados no primeiro parágrafo, eis que a rainha deita-se no chão, emocionalmente extenuada após mais uma violenta discussão com seu marido, e olha para cima, fazendo-se/nos esta pergunta: qual? Acrescentando-se que ela não mais se sente apta a ser cristã e que todo o contexto de reunião do filme está atrelado a uma necessidade de comemorar o Natal em família, acrescento minha voz lânguida à dela: qual?

Seguindo em frente no filme, ainda nos deparamos com um pungente dilema envolvendo a homossexualidade de um dos personagens, que molesta desde a infância outro ambicioso de sangue nobre (vivido pelo belo e jovem Timothy Dalton, à direita na foto), que indaga ao rei Henrique II o quão condenável é “ser um sodomita, ser um destes homens que gostam de outros homens”. A reação do rei é a mais dilacerada possível nesta seqüência – não somente por causa disso – e a inclusão deste tema não mencionado nas sinopses do filme só coroou definitivamente a genialidade dialogística do mesmo, que também se vale de uma brilhante trilha sonora de John Barry, que tornam ainda mais solenes e carregadas de impacto as imponentes e extraordinários interpretações de todo o elenco, destacando-se, além de Peter O’Toole e Katherine Hepburn nos papéis principais, a estréia substancial no cinema de Anthony Hopkins, como o mais aparentemente iracundo dos três irmãos (à esquerda, na fotografia). Obra-prima, que tem tudo, tudo, tudo a ver com os dias de hoje – e olha que eu não destaquei nem um vigésimo do que poderia tomar como metáfora confessional a partir deste filme!

Wesley PC>

2 comentários:

Peter disse...

me debrucei sobre o seu blog hj e gostei muito dos teus textos. como você gosta muito de filmes, e faz criticas ótimas, gostaria de deixar aqui uma dica de documentário que ainda está por ser lançado. chama-se gen silent, sobre homossexuais na velhice e o tipo de agressão que podem estar sujeitos (infelizmente).

http://stumaddux.com/GEN_SILENT.html

Gomorra disse...

Agradeço, de coração, o comentário e antecipo que sim, é muito grande a minha curiosidade em ver este filme, que não conhecia. O tema me parece fabuloso! Obrigado!

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