domingo, 20 de fevereiro de 2011

“EU NÃO SEI LUTAR. SÓ SEI SOBREVIVER...”!

À medida que eu fui entrando em contato com um tipo de cinema mais antenado com o conceito de autoralidade, passei a ler e a ouvir com freqüência que Steven Spielberg era um mau exemplo. Estranhava e pensava comigo mesmo: como se explica que o responsável direto ou indireto por alguns dos filmes preferidos de minha infância e adolescência seja difundido como um crápula hollywoodiano descerebrado? Como? Impregnação ferrenha de ideologia era a resposta mais precisa.

Por mais que eu teimasse em admitir que os filmes spielberguianos eram ótimos, e não somente porque dialogavam diretamente com as minhas fantasias recônditas infantis, sentia vergonha de admitir em público que gostava dele mesmo assim, que sentia orgulho de ter cabulado aula pela primeira vez na vida para assistir a “Tubarão” (1975) na TV e que “A Lista de Schindler” (1993) era uma obra-prima singular, para ficar em apenas dois exemplos. Quando eu amadureci criticamente, porém, esta vergonha foi para as cucuias: Steven Spielberg é um gênio comercial, muitíssimo coerente em seu tema persecutório familiar.

Quando assisti a “Munique” (2005) nos cinemas, fiquei chocado com uma cena de sexo consentido envolvendo uma mulher grávida. Para mim, era como se ele tivesse finalmente amadurecido e ousado abordar temas muito mais sérios do que o seu público-alvo estava acostumado. Mas era um erro crasso de julgamento de minha parte. E, revendo o maravilhoso “A Cor Púrpura” (1985), ao lado de minha emocionada mãe, na noite de hoje, ouso comentar que eu deveria ter vergonha de ter sentido vergonha: enquanto cineasta, Steven Spielberg é extraordinário. E digo mais: se eu fiquei escandalizado com a cena de sexo descrita acima, o que dizer de um filme antigo em que uma jovem negra que engravidara duas vezes daquele que pensava ser seu pai biológico descobre os prazeres do orgasmo em companhia oscular de outra mulher?!

Em mais de um sentido, “A Cor Púrpura” pode (e merece) ser acusado de academicismo: tudo no filme é planejado para ganhar prêmios e, de fato, é uma injustiça tremenda que ele não tenha recebido sequer um dos 11 Oscars a que foi indicado. A Academia hollywoodiana tinha tanta vergonha de admitir que Steven Spielberg era inteligente, sensível e genial quanto eu tinha em minha adolescência de aprendiz de crítico. Quanta tolice, quanto desperdício de reconhecimento autoral!

A exibição do filme, através do canal fechado TCM, encerrou-se há quase uma hora e eu ainda me flagro tremendamente emocionado, afetado mesmo por toda a compensação dramática do filme, que consegue destilar sua supremacia qualitativa até mesmo em seus defeitos estruturais, como, por exemplo, a desmiolada incursão de situações cômicas e/ou pretensamente vingativas (vide o momento em que a protagonista cospe no copo d’água do pai zangado de seu algoz marital). O filme é lindo! Lindo de uma forma quase traiçoeira, perigosa mesmo, mas prenhe de contestação, de valor, de poesia, de encanto, de magia dramática, de talento, de tudo o que de bom se espera de um ótimo filme. E ainda me flagro cantarolando o tema composto por Quincy Jones:

“Sister,you've been on my mind
Sister, we're two of a kind
So sister, I'm keepin' my eyes on you
I betcha think I don't know nothin'
But singin' the blues
Oh sister, have I got news for you
I'm somethin' I hope you think
that you're somethin' too”


Lindo, lindo, lindo! Poderia reclamar dos “finais felizes”, da cena em que os freqüentadores de cabaré invadem com sorrisos uma igreja, da composição caricatural da personagem de Oprah Winfrey, das facilidades comoventes, de muita coisa nesta adaptação do romance de Alice Walker que ainda não li, mas Steven Spielberg está de parabéns – por este e por pelo menos ¾ de seus quase quarenta filmes como diretor!

Wesley PC>

4 comentários:

Americo disse...

e o E.T.! hoje falei 'Ai' e lembrei dele! kkkkk, um sinal!


não é, que besteira desse povo... o cara é o cara...


mas talvez esse esnobismo seja bom para ele fazer o que quiser, não é mesmo? enfim!


see you! onde, quando, como? a gente se liga! dia 28- cai numa segunda, iremos ver bruna surfistinha no cinema! é na promoçao dos três reias de toda segunda esse mês! hj vou! trabalhará, não é?

' brotherr we're two of a kind, lalalala'

hehe!

Lebre de Março disse...

Encontrei este blog por acaso e adorei.

Sou louca por cinema, era impossivel não gostar.

Ah e adoro o nome do blog. :)

Parabéns e beijinhos do outro lado do Atlântico.

Inês

tatiana hora disse...

faz tanto tempo que vi alguns filmes do Spielberg (A cor púrpura, ET, Tubarão, Jurassic Park, etc), que nem sei o que dizer sobre a autoria dele, mas lembro de ter gostado.
e li certa vez um texto do Gardnier afirmando que o Spielberg era tão rico que tinha dinheiro pra ser autoral... polêmica...

Gomorra disse...

(risos)

De coração, Steven Spielberg merece uma segunda chance! A regravação atializada dele para GUERRA DOS MUNDOS é primorosa, em minha opinião! Mas os bons exemplos se multiplicam...

Lebre de Março, muitíssimo obrigado pelo comentário.

Américo, hoje é dia de matrícula no DAA, estou preso (risos), mas... Dia 28, estaremos na fila!

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