quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

“CUIDADO COM A ESQUERDA”: “DEPOIS QUE EU VIREI HIPPIE, NUNCA MAIS QUERO SABER DE GUERRA... SÓ AMOR!”

Os dois jargões intercalados no título estão contidos em “Se Meu Dólar Falasse...” (1970, de Carlos Coimbra), filme que vi por mero acaso, a fim de afastar o fastio natalino, mas que, ao término, será defendido entusiasticamente por mim como uma das melhores comédias do cinema brasileiro!

A trama, visivelmente inspirada no clássico hollywoodiano “Deu a Louca no Mundo” (1963, de Stanley Kramer) reúne diversos comediantes, numa produção faustosa da Boca do Lixo – antes de virar o pólo de produção erótico-contestatória que tanto me interessa – cujo roteiro é repleto de geniais e coerentes reviravoltas: logo no início, a costureira Madame Bisisica (Dercy Gonçalves) recebe a proposta de uma de suas clientes milionárias e repleta de neuroses (pois ela é chique, e “é chique ter neurose!”) de ajudá-la numa transação comercial, pois ela estará ocupada. Tudo o que Bisisica precisava fazer era receber uma estatueta das mãos de um negociante japonês e assegurar que, em sete dias, lhe pagaria a quantia de quinze mil dólares, afinal entregues pela cliente Verushka (Zélia Hoffman). O problema é que o dinheiro vai parar no lixão, por causa de um atabalhoamento familiar/empresarial na boutique de Bisisica, sendo o montante monetário encontrado por um grupo de mendigos liderado por um intelectual apelidado de Comendador (Borges de Barros, maravilhoso). Enquanto Bisisica, sua filha e seu genro (este último interpretado pelo galã David Cardoso, que, aqui, é também diretor de produção) vão à sede da prefeitura municipal descobrir o destino do caminhão de lixo e se deparam com um entulhamento burocrático, o Comendador e seus amigos Tisiu (Grande Otelo, soberbo como sempre) e Catifunda (Zilda Cardoso, hilária), além de outros dois, entre eles um profeta anti-luxo (Sadi Cabral), trocam as notas estadunidenses encontradas no lixão por um valor abaixo da taxa de câmbio, no boteco de um português oportunista (Manoel Vieira), mais tarde extorquido pelo detetive, “com cara de cangaceiro de filme nacional” (Milton Ribeiro), que Bisisica contratara numa roda de capoeira. A estória se complica ainda mais quando se descobre que a estatueta comparada era apenas um esconderijo para tráfico de cocaína, de maneira que, no desfecho da trama, inúmeros tiros serão disparados, até que o personagem de Grande Otelo, “em nome das setenta e uma comédias que fez”, exige que o final do filme seja também legitimamente cômico. A ação retrocede e, na derradeira imagem, a própria Dercy Gonçalves, apresentando um programa de TV, entrega à sua personagem uma estatueta similar à que causou toda a confusão como prêmio por sua desenvoltura aventureira. “Vai começar tudo de novo, ...”, congela a personagem, antes do derradeiro “pôrra!”. E eu extasiado, ouso dizer que o filme é genial! (risos)

Por mais que eu tenha detalhado o entrecho, tem muito a ser visto e gargalhado ainda, sem contar que as piadas metalingüísticas são ótimas e a homenagem de Sebastião Bernardes de Souza Prata (nome verdadeiro de Grande Otelo) ao companheiro Oscarito nos créditos finais é emocionante. Por falar em Grande Otelo, a cena em que ele experimenta LSD numa comida de boate e sai dançando ao som de “Se Não Tem Abelha, Não Tem Mel”, superposta ao som de uma canção psicodélica britânica, merece figurar entre as mais açambarcantes da filmografia tupiniquim. Absolutamente extraordinária. Quem diria? Amei este filme!

Wesley PC>

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