domingo, 24 de outubro de 2010

“...TINHA QUE SER VIADO DE VERDADE, NÃO DEITAR NO CHÃO PRÁ NINGUÉM!”

Assim a personagem real acima explica o que era ter garra na "zona" (área de prostituição) antigamente. Comparada aos famosos travestis Madame Satã e Cintura Fina, a protagonista de “Tomba Homem” (2008, de Gibi Cardoso) se emociona, no auge de seus 73 anos de idade, ao comparar a malandragem de outrora (conceito positivo) com a bandidagem de hoje em dia (constatação negativa). E, como se não fosse suficiente, assisti a este filme, na manhã de hoje, depois de ter visto um esboço de entrevista, realizado por um amigo meu enquanto exigência disciplinar para sua formatura no curso de História, sobre um personagem característico de Aracaju. Ele escolheu o homossexual Magnólia, que pode ser visto vendendo meias e calcinhas no Mercado Municipal e que, às vésperas de completar 65 anos, me mostrou que futuro é um espaço-tempo possível.

Salvo pelas celebridades marginais citadas nas primeiras linhas deste texto, nunca havia me deparado com uma bicha velha contando estórias de sua própria vida e, ao escutar Magnólia destacando o envolvimento de políticos influentes de hoje em dia no baixo meretrício, explicando como seu nariz quebrado em um ato de violência preconceituosa e ressaltando que ama o “macho” com quem vive há mais de 29 anos, projetei alguns de meus medos pessoais em sua trajetória pública. Se fosse comigo, será que eu teria sobrevivido?

No pungente esboço de entrevista que foi exposto diante de mim, Magnólia pede R$ 20,00 para dar seu depoimento, diz que não sente mais vontade de transar hoje em dia, escancara a nostalgia sentida pela cidade de Santos SP, de onde veio, e se confessa como uma devota de Elizabeth Taylor. “Tem mulher neste mundo mais linda do que ela, menino? Me diga”. Tem não. Quem sou eu para contestá-la?

Enquanto a meia-hora paga de depoimento avançada, Magnólia entupia a tela com interjeições fáticas, explicava para uma interlocutora o que era “uma pica meio dura meio mole”, declarava amor ao seu homem, mesmo quando frisava que ele costuma se embebedar e que a relação dos dois não é bem-vista pela família dele, e reclamava insistentemente que Aracaju é um lugar péssimo para vender suas roupas, “pois aqui é cheio de gente pobre”. E eu quedava-me extasiado diante da baixa resolução daquelas imagens ferinas, diante daquelas palavras humanas, demasiado humanas, que me ensinavam o significado de expressões como “Mamãe tá chegando” (gíria para ejaculação vindoura) ou “lavar o furico na beira do rio” (mais do que literal). Magnólia falava da família, Magnólia falava de si mesmo em terceira pessoa, Magnólia perguntava se ela tinha cara de velha, Magnólia dizia que era “bela e loira”, Magnólia tinha certeza interrogativa de que seu homem a amava (vive com ela desde os 17 anos de idade. Hoje tem 45!), Magnólia pedia mais dinheiro, Magnólia era gente, era pessoa, era ser vivo. Magnólia era alguém como eu, como tu, como ela mesma. Viado velho é foda!

Wesley PC>

4 comentários:

Debs Cruz disse...

Mais um pra lista, viu?
Vai ficar me devendo mais esse.
Já deve dá uma maratona de 24h de filmes rs

Gomorra disse...

(risos)

Este é pequenininho.
Tem só 42 minutos.
Facinho, facinho...
Chega, chega, tia!

WPC>

adriana disse...

Preciso mto vêr esse documentário. Onde eu encontro? Obrigada!

Gomorra disse...

Um amigo me emprestou... Tu moras em Sergipe? Se SIM, nos procura!

WPC>