quarta-feira, 26 de junho de 2013

“FILME-VERDADE”? COMO ASSIM?!

Ao final da sessão de “Estou com AIDS” (1986, de David Cardoso), precisei tomar banho para me esterilizar simbolicamente do que vira na tela: mentiras, depoimentos precipitados, erros de julgamentos e dados científicos são misturados num falso documentário que, por pior que seja, por mais amedrontador que tenha sido para a época, não consegui achar péssimo. O motivo: passados vinte e oito anos, a atmosfera de “comédia ‘trash’ involuntária” predomina em relação aos demais aspectos do filme, bons ou ruins...

Antes dos créditos iniciais, diversas pessoas pronunciam o título do filme, supostamente portadoras do vírus que causa a doença. Depois, ouvimos a voz do diretor e produtor conversando com um médico ao telefone, explicitando o seu intento de realizar um filme sobre a doença. Seguem-se esquetes ficcionais bastante artificiais de pornografia, em que prostitutas competem pelo número de clientes, dois homens alisam as suas mãos quando acariciam a bunda de uma quenga num ‘ménage à trois’ e um doente terminal nordestino relembra a sua chegada em São Paulo, quando era comumente assediado por homossexuais promíscuos, que lhe ofereciam dinheiro e presentes caros...

 Paralelamente a estas mini-tramas, o diretor entrevista personalidades famosas, que dão os seus pareceres sobre a AIDS: a colunista hollywoodiana Dulce Damasceno de Brito define a doença como um “pesadelo funcional”, visto que, graças ao horror que ela provoca, conscientiza muitas pessoas; Alcione, auto-referida como “musa dos ‘gays’ do Brasil”, afirma que não entende o porquê de esta doença afligir as mulheres e homossexuais brasileiros, visto que ambos são “limpinhos”, imputando a culpa do contágio aos ‘gays’ estrangeiros e orientando a platéia a ter medo dos homossexuais estrangeiros, principalmente os de olhos azuis; o boxeador Maguila afirma que a doença ataca quem se afasta do esporte e que, por estar sempre ocupado treinando, ele não sabe quase nada sobre a doença; a modelo Helô Pinheiro cobra providências da Secretaria de Saúde governamental; o humorista Pedro de Lara associa a doença a uma peste bíblica e recomenda a leitura emergencial do Apocalipse de São João; e por aí vai...

Em meio a alguns depoimentos, imagens de símios escandalizados eram enxertados de forma ruidosa e cômica. A filha do diretor, Tallyta Cardoso, aparece fingindo que é uma criança infectada, obrigada pelos colegas a se afastar da sala de aula, o que obriga os seus pais ricos a instalarem um sistema de microfones para que ela possa acompanhar as aulas de Matemática à distância e participar das argüições sobre a tabuada de multiplicação. Alegando estar muito cansada por causa da moléstia, quando a professora lhe pergunta quanto é “dez vezes dez”, ela responde: “noventa”. Ao final, a foto da garotinha é acompanhada por uma enorme interrogação vermelha, deixando entender que aquela personagem, interpretada como se fosse real, falecera... Impossível não sentir a vontade de cair na gargalhada!

Para além de todas estas patacoadas anteriormente mencionadas, o filme insiste em manter o tom sério, assistencialista, com diversos profissionais médicos descrevendo minuciosamente os sintomas da doença ou exibindo radiografias e fotografias dos tumores a ela associados. Pessoalmente, creio que o diretor David Cardoso tenha sido deveras bem-intencionado ao realizar este filme: moralista convicto, ele chega a associar a necessidade de controle da doença à proteção do pantanal mato-grossense, mas incorre em generalizações aberrantes, como associar a maconha a um perigoso enfraquecedor do sistema imunológico humano diante do possível contágio com a doença. Por mais “nojento” (com e sem aspas) que o filme seja, farei questão de revê-lo em grupo: ele merece ser discutido! Exemplo: num dado momento - um dos mais "geniais", por falta de palavra melhor - uma psicóloga atende a um homossexual "infectado que não quer se identificar" em presença da câmera do David Cardoso e, quando o paciente reclama que está morrendo, o médico retruca: "as pessoas estão acostumadas a falar da vida. Por isso, entendem viver como algo bom. Mas precisamos falar da morte também. Todos nós vamos morrer, inclusive eu". Obviamente, o homossexual se indigna com esta hipocrisia fingida. Só vendo para crer! 

Vale lembrar que o filme foi um fracasso retumbante de público e crítica. Também pudera, conhecendo a especialização do diretor em sacanagem, todos adentraram o cinema em busca de sexo (eu inclusive, admito!). Até que uma ou outra pessoa aparece nua, mas David Cardoso não possui a ironia de um Fauzi Mansur, de modo que a unidimensionalidade moral canhestra desta obra o deslegitima como o filme científico que ele pretendia ser e o reconfigura como um interessantíssimo ‘terrir’ brasileiro, daqueles que não têm paralelo com quase nada realizado na história do Cinema, salvo aquelas produções oportunistas e tematicamente desagradáveis realizadas por Gualtiero Jacopetti, Franco Prosperi e Paolo Cavara. Por isso, eu insisto tanto: a Boca do Lixo paulistana é pura vanguarda!


Wesley PC> 

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