quinta-feira, 1 de novembro de 2012

“ESTOU SENTINDO O CHEIRO DE UMA COISA GOSTOSA CHAMADA DINHEIRO!”

Mais uma vez, adentro a madrugada empolgado após ter visto um filme do canastrão Francisco Cavalcanti. Produtor, diretor, roteirista e protagonista de quase todos os seus filmes, este cineasta possui um dos ‘corpus’ mais coerentes da Boca do Lixo paulistana. Tão coerente que, tamanha a semelhança entre seus enredos sobre justiceiros para-policialescos, parece até que ele está sempre a realizar o mesmo filme, eventualmente piorado. Mas, ao mesmo tempo, quanta garra, quanta vontade de filmar e contar uma história!

 O que mais me impressiona no cinema deste diretor é, obviamente, o seu senso moral(ista) deveras exacerbado e senso-comunal em sua adesão aos clichês e convenções de um arremedo de gênero melodramático-pornográfico essencialmente tupiniquim. Em “Os Violentadores de Meninas Virgens” (1983), como não muito diferente de suas obras que vi anteriormente, a trama está rigorosamente sintetizada em seu título: numa cidade interiorana, as moçoilas virgens (não necessariamente bonitas) são seqüestradas por uma gangue de criminosos para, em seguida, serem vendidas a milionários com tara por cabaços. Quando assassinam a noiva grávida e o cunhado de um tintureiro, este resolve investigar por conta própria os crimes (visto que as moças raptadas eram mortas depois de estupradas), mas é também seqüestrado e, no cativeiro, descobre que a filha de um dos milionários é raptada por engano, o que adiante e hipertrofia o tiroteio do final do filme. O detalhe: ao som de canções interpretadas por Lionel Ritchie e Giorgio Moroder, esta moça praticava sexo anal com seu namorado, a fim de conservar o hímen intacto, para poder “se casar virgem” num futuro idealizado. A derradeira imagem do filme é o justiceiro pré-viúvo diante do cadáver de um dos criminosos (interpretado pelo recorrente Satã), morto numa piscina, enquanto uma fila horizontal de moças violentamente defloradas se alinha atrás dele. Encerramento mais paradigmático em relação a esta variação ‘exploitation’ da Bica do Lixo impossível!

 Um aspecto cabal do cinema cavalcantiniano é que, por mais moralista e bem-intencionado que ele seja em suas resoluções dramáticas, o modo como ele sujeita suas vítimas a cenas de humilhação sexual fetichisticamente contempladas pela câmera beira o contraditório. Numa cena-chave, inclusive, vemos o protagonista proclamar para alguns repórteres interessados num depoimento seu, quando ele saída do funeral de seus convivas, que não vai comercializar a tragédia de seu melhor amigo e de sua noiva. Numa cena seguinte, acompanhamos o banho voyeurístico de uma das raparigas virgens que seriam seqüestradas pelos desalmados criminosos do filme. O detalhe pitoresco: levamos a sério o que o avatar personalístico de Francisco Cavalcanti fala, ao mesmo tempo em que nos deixamos confundir desejosamente com os marginais do enredo, obcecados pela concretização de seus mórbidos impulsos eróticos. Como não se sentir atraído por um filme destes? Como não admitir que ele tem muito o que ser estudado? A cada nova produção do Francisco Cavalcanti que tenho o prazer de conferir, percebo o quanto eu me equivoquei ao condená-lo negativamente nos contatos iniciais: ele é um, gênio incompreendido, no sentido mais artesanal e emergencial do termo. Sou fã!

 Wesley PC>

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