sexta-feira, 31 de agosto de 2012

“VOCÊ GOSTA DE FODER, NÉ, SEU FILHO DA PUTA? POIS EU VOU MOSTRAR PRÁ VOCÊ COMO É QUE SE TREPA!”

“Os Tarados” (1983) é o quarto filme do diretor paulista Francisco Cavalcanti a que assisto. Antes deste, para além de notas uma canhestra coerência em sua obra, costumava reclamar que ele era o mais desagradável cineasta da Boca do Lixo a que tive acesso, mas, com este filme tosco, posso finalmente dizer que me tornei seu fã!

Um elemento demasiado recorrente nas obras policialescas e repletas de sexo quase explícito do Francisco Cavalcanti é a tragicidade familiar. Não raro, seus personagens principais (geralmente interpretados pelo próprio diretor) estão às voltas com uma necessidade de vingança, em razão de sua mãe ter sido violentada e/ou morta num contexto bastante traumático. No filme em pauta, Lauro, o protagonista, é um homem que, aos sete anos de idade, presenciou sua mãe ser assassinada por um homem que, mais tarde, alega que ela foi a única mulher que ele amou. No filme, entretanto, a única relação que vemos entre ele e ela é um estupro num momento de bebedeira. Cego pela vingança, Lauro rapta a filha do assassino de sua mãe e resolve assassiná-la diante dele, a fim de “causar tanto sofrimento quanto ele causou”. Aos poucos, entretanto, Lauro apaixona-se pela rapariga, que tenta seduzi-lo a fim de salvar a sua própria vida, mas, afinal, acaba sinceramente atraída por ele. Num enquadramento inusitada e involuntariamente belíssimo, a seqüestrada pede que ele reze a Deus para que a vingança saia de seu coração e ele possa finalmente encontrar o amor, enquanto vemos uma reprodução do quadro “La Gioconda”, de Leonardo da Vinci, sobre a cama de motel na qual eles estão... Ao final, a prece dela dá certo: gravemente ferido, o estuprador arrependido do passado abençoa a relação entre Lauro e a garota por quem se apaixona...

Apesar da aparente organização com que o argumento acima é descrito, o roteiro do filme é entrecortado por outra intricada trama de seqüestro, envolvendo uma rixa entre gangues e um poderoso homem de negócios, que motiva o rapto em massa de várias garotas. Estas se convencem entre si que, se fingirem amar os seus raptores, terão mais tempo para continuar viva e, quem sabe, conseguirem fugir. Uma delas, entretanto, fica tão amargurada após ser deflorada por seu raptor que pula do oitavo andar de um prédio, numa cena gráfica que impressiona pela verossimilhança angustiada em relação à moralidade da época. Aos poucos, as tramas se imbricam, não obstante, em vários momentos, as mesmas serem apenas pretextos para que o diretor possa exibir vaginas, bundas e pênis semi-eretos, a fim de atender a uma rigorosa exigência comercial erótica da Boca do Lixo. Mal-feito ou não, o fato é que gostei muito do filme: agora entendo que a mixórdia de estilos envolvendo referências a Fritz Lang, José Mojica Marins e Sergio Leone e a trilha sonora esculhambada, que reveza de um famoso tema de ficção científica de John Williams para uma batida ‘disco’ em segundos, fazem parte de um elã produtivo, que tornou Francisco Cavalcanti um dos mais prolíficos (e injustiçados) cineastas brasileiros da década de 1980. Depois deste filme, com certeza, preciso prestar mais atenção a ele em minha futura dissertação de Mestrado sobre o cinema paulistano equivocadamente taxonomizado como pornochanchada.

Por falar em minha dissertação de Mestrado, antecipo aqui que, graças a uma conversa seriíssima que tive com meus colegas de classe – e que pretendo debater com pelo menos duas de minhas professoras – levarei à frente a minha decisão de trocar de orientador. Estou cansado de ver o meu projeto ser falsamente enquadrado numa temática da Economia Política da Comunicação que ignora a relevância psicanalítica dos filmes analisados. No caso da obra cavalcantiniana, por exemplo, como estudá-lo sem utilizar um referencial freudiano? Como? Gostei muito do que vi!

 Wesley PC> 

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