terça-feira, 21 de agosto de 2012

“NÃO ADIANTA MAIS LAMENTAR O IMOBILISMO DA MADRUGADA: CAPITULEI DIANTE DUM FRACASSO PERSECUTÓRIO, ESTÁ FEITO! PORÉM, O SOL INSISTIU EM NASCER. CHUVOSO, MAS NASCEU.”

“Ainda no ‘colegial’ (hoje chamado de ‘ensino médio’), eu já era fascinado por cinema e fundei um cineclube. Na época, cineclube não era simplesmente o lugar onde se exibiam os filmes, mas um espaço onde, através dos filmes, entrávamos em contato com outras realidades e discutíamos questões relativas às nossas vidas (...). Dessa forma, muito do que aprendemos, vivemos e refletimos foi graças ao cinema”. 

O longo título desta postagem é um excerto da mensagem de celular que enviei a alguns amigos que se preocupam comigo, depois da submissão depressiva que me afligiu na madrugada de hoje. O depoimento acima, por sua vez, é do cineasta Roberto Gervitz, relembrando fatos importantes de sua juventude cinefílica. Muito me identifiquei com tal depoimento e, após lê-lo, readquiri uma confiança necessária para enfrentar o dia de hoje, uma terça-feira. Liguei a TV e pus “ABC da Greve” (1979, de Leon Hirszman) para ser executado. Não foi uma escolha ingênua. Nunca é!

Segundo li na Internet, há algumas horas, há um indicativo de que os professores da Universidade Federal de Sergipe encerrem hoje a greve que se estende por mais de três meses. No filme, o diretor acompanha as reivindicações grevistas de metalúrgicos insatisfeitos com seus salários e suas condições de trabalho. Em dado momento, “Pode Guardar as Panelas” explode oportunamente na trilha sonora. E uma mulher se exaspera: “a greve é assunto dos operários e dos donos de firma. Não tem nada a ver a polícia entrar no meio!”. Em palanques, diante de centenas de homens, o então representante sindical Luís Inácio Lula da Silva conclama seus companheiros a uma contestação ordeira. Depois de algum tempo, eles transigem com os empregadores, mas as injustiças salariais voltam a ser efetivadas. Nova greve, novos objetivos: “quinze dias de greve não vão interromper quinze anos de exploração!”. Ao final, o que mudou?

Estávamos em 1979, e a narração do filme espantava-se diante da multiplicação de favelas, ao redor do complexo fabril do ABC paulista (composto pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, além de Diadema, a posteriori), desde que o governo militar foi implantado, em 1964. Foi uma declaração ousada, que talvez explique o porquê de o filme ser tachado de “incompleto” na abertura, quando, em minha opinião, estava acabadíssimo – ao menos, em sua estrutura formal. Em verdade, assisti à versão restaurada após o (re)lançamento em 1989. E, num dado momento, dois advogados conversam. Um deles afirma: “assim continuará a eterna luta entre o capital e o trabalho”, ao que o outro retruca: “não é luta, mas uma composição de interesses!”. Quem sou eu para dizer que não? Estou no nadir de um ciclo afetivo permeado por fracassos.

 Mas o filme continuava, eu continuava... Os acordes geniais da canção do Paulinho da Viola voltariam a ser ouvidos, antes que o filme acabasse. Vinicius de Moraes, Elis Regina e diversos outros artistas apóiam a luta dos trabalhadores. E, nos dias hodiernos, Roberto Gervitz lamenta a perda de historicidade das lutas atuais, principalmente as cinematográficas:

 “A miséria brasileira sofreu nestes 20 anos um processo de aprofundamento tão radical, e assistimos a um esgarçamento do tecido social tão grande, que hoje é muito mais difícil de acreditar numa transformação do que na época da ditadura, durante a qual vivemos sob a censura e a repressão. Embora tal passado não provoque nenhuma saudade, paradoxalmente, era mais fácil sonhar...” 

E, aos poucos, meus amigos respondiam ao que eu lhes havia confidenciado. E eu os amo. Perpétua e sinceramente. Politicamente, aliás!

Wesley PC> 

2 comentários:

Jadson Teles disse...

Uma questão de honra ver o filme do Leon.... que vergonha!

Gomorra disse...

Questão de honra é te ter em minha vida para sempre!!!

(WPC>)