quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MINI-MARATONA WALTER HUGO KHOURI #09: “ELE FEZ CARREIRA COM A INFIDELIDADE”...

Imaginava que fosse desgostar de “Forever – Juntos Para Sempre” (1991), obra de Walter Hugo Khouri produzida e lançada imediatamente após o fechamento da Embrafilme. No enredo, Marcelo (aqui interpretado pelo ator cassavetesiano Ben Gazzara) morre logo no início e não fala português: a crise identitária é alçada a uma macrocategoria, ainda mais difícil de ser captada. Porém, o conhecimento prévio das marcas registradas do cinema khouriano permite uma apreensão da obra muito além de sua qualidade imediata: “Forever – Juntos para Sempre” é uma reticência que antecipa a imortalidade num conceito em que “o tempo devora tudo” e “nada é para sempre”. Desde que se entenda o papel da masturbação feminina e da suspensão da culpa em relação ao incesto no processo...

Como é típico, Marcelo é rico. Cercado, desejado e possuidor de belas mulheres – entre elas, uma inevitável Ana – Marcelo deixa-se metonimizar na prática do arco e flecha, em que “arco e arqueiro são a mesma coisa: quando mira, o arqueiro mira a si mesmo”. Berenice (vivida na idade adulta por Eva Grimaldi e na adolescência por Ana Paula Arósio – às vezes, simultaneamente) investiga a morte de seu pai num viés ‘rosebudiano’, a partir do bilhete que encontra perto de seu leito de morte: “lembre-se, foi você que me ensinou: O CORPO É A ÁRVORE DA SABEDORIA”. Primeiro, é-lhe dito que ele morreu enquanto fazia sexo com alguém. Em seguida, afirmam que ele morreu “em meio ao tédio e à solidão”. Afinal, descobre-se que ele morreu com sua filha nos braços, despida e sentada sobre seu pênis. E, a fim de coroar com o manto da perpetuidade este amor ideal e idealizado, Berenice projeta imagens de seu pai morto numa parede, enquanto imagina-o ainda vivo, amando-a para sempre...

Até metade da projeção do filme, temia confirmar a impressão de que desgostaria dele: roteiro fugidio, trilha sonora não mais a cargo do habitualíssimo Rogério Duprat (mas substituído por ícones do ‘jazz’ norte-americano, como Billie Holiday e Duke Ellington), inglês forçoso nos diálogos dublados... Mas, aos poucos, a genialidade compositiva dos planos magistralmente fotografados por Antônio Meliande e Antonio Nardi conquistou a minha adesão apaixonada, muito mais do que a minha identificação propriamente dita: definitivamente, este filme não funcione sem pelo menos metade dos filmes anteriores em que um Marcelo é erigido como personagem principal!

E, durante a sessão, eu amei. Amei tanto que não condenei o totêmico personagem (na imagem, sentado num cenário tão recorrente e icônico do universo khouriano), não me irritei com seu egoísmo, sua presunção bem-sucedida, seus usos e desusos das exuberantes mulheres que o cercam. Eu o amei tanto como qualquer uma daquelas fêmeas e o próprio diretor. Eu entendi tudo. Ou melhor, quase tudo: o amor, a lua e o vento permanecem distantemente ao nosso alcance! 

Wesley PC> 

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