terça-feira, 18 de outubro de 2011

A TRAIÇÃO DO LOREDANO NÃO ME SAI DA CABEÇA...

Não vou ser hipócrita: quando soube que “O Guarani” (1979, de Fauzi Mansur) seria exibido no Canal Brasil, a primeira coisa em que pensei, no caso de ter tempo para ver o filme, foi: “ôba, verei David Cardoso nu mais uma vez!”. Por mais inadequado que ele estivesse em relação ao papel do índio Peri, o seu apelo sexual essencialmente brasileiro compensava eventuais desvios do roteiro, que, segundo um livro de consulta básico, era condenado como sendo “voltado prioritariamente para o erotismo e sem poesia”. Tinha quase desistido de ver o filme – não por esta indicação negativa, mas pelo horário tardio da sessão – mas cria que a argumentação condenatória do tal crítico era verdadeira. Um acaso insone, entretanto, me fez tirar a prova: o filme pode até não ser bom – e pior: não possuir cenas de nudez do canastrão tesudo David Cardoso – mas tem poesia sim!

Apesar de eu não ter lido ainda a obra original do José de Alencar na qual o filme se baseia, fiquei contente com a estrutura enredística aparentemente fiel à trama, repleto de intrigas paralelas e clímaxes aventurescos. O ritmo é irregular, a direção não possui firmeza, a montagem é ruim, a protagonista feminina Dorothée Marie Bouvyer é absurdamente desenxabida, o restante do elenco é esforçado e a trilha sonora composta pelos temas de Carlos Gomes é boníssima. Conclusão: no geral, o cômputo técnico do filme lhe é qualitativamente desfavorável, mas, no plano receptivo pós-literário, ele tem lá suas virtudes... Enfada, não excita, e demora demais, mas, em minha opinião insistente, tem poesia sim: a seqüência final, à contraluz, em que Ceci e Peri recebem a missão natural de colonizar novamente a Terra após um dilúvio fala por mim!

Para além dos problemas e virtudes supramencionados, se existe algo que me marcou deveras neste filme foi a sua divisão capitular, que, pelo que pude entender, tem a ver com a do livro, ao qual, insisto: ainda não li! Numa das cartelas que se sobrepõem às imagens, está escrito: “A Traição de Loredano”. Trata-se de um personagem ex-eclesiástico e malévolo, interpretado por Flávio Porto, que desencadeia a matança generalizada de homens brancos e nativos indígenas que se instaura no último quartel do filme E, por motivos que vão além do filme em si, isso me marcou, ficou gravado em minha mente: será que eu terei coragem de rever esta obra? Sabendo de antemão que David Cardoso quase não aparece, vestido ou não, mesmo sendo o protagonista, com certeza, minhas expectativas e frustrações serão bastante diferentes...

Wesley PC>

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