domingo, 15 de maio de 2011

“EU TAMBÉM TENHO OS MEUS PROBLEMAS!”

Numa das cenas geniais da obra-prima de Woody Allen, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), seu personagem discute com a namorada, na bilheteria de um cinema, pois o filme que eles desejavam ver já havia começado. Tratava-se de “Face a Face” (1976), filme do Ingmar Bergman que eu ainda não vi. A namorada tentava argumentar que eles perderam somente os créditos iniciais, em sueco, mas o personagem neurastênico de Woody Allen quedava-se irredutível: “ou eu vejo do começo ou eu não vejo o filme”. E eles terminaram revendo um documentário sobre o Holocausto judeu com quase 4 horas de duração...

Na noite de ontem, eu estava impaciente porque “Interiores” (1978), um dos poucos filmes de Woody Allen que eu ainda não vi, seria exibido na televisão. Minha mãe, entretanto, estava vendo outro filme noutro canal e eu teria que perder os 10 minutos iniciais. Talvez o diretor não me perdoasse por me submeter a ver o filme nestas condições, mas, não hesitei e... Quanta dor, meu Deus, quanta dor! Woody Allen fez a sua lição bergmaniana com muito cuidado e rigor!

O rigor, em verdade, soou deveras extremado, tanto que o filme parece mais gélido que o pretendido nalgumas seqüências, mas o modo como ele se encerra... Emula desde “Através de um Espelho” (1961) a “Gritos e Sussurros” (1972), passando por diversos outros clássicos do gênio sueco por quem o gênio nova-iorquino é tão obcecado. A trama do filme, aliás, não poderia ser mais cara a ambos: o pai de três irmãs bastante diferentes – tanto em personalidades quanto em talentos artísticos – resolve se separar da mãe, que padece de severas crises psiquiátricas. A aguardada conclusão do emaranhado de conflitos dolorosos familiares que se amontoam neste filme é um presente a quem é fã de qualquer um dos dois artistas. Eu me senti mais do que contemplado, tanto por dentro, quanto por fora!

Aliás, que título pertinente para um filme: “Interiores”. Tudo porque a mãe depressiva é obcecada por decorar ambientes... Numa das cenas mais belas do filme, ela é mostrada pacientemente vedando todas as janelas de sua cabeça com fita isolante preta, a fim de tentar se matar com vazamento de gás. Acaba a fita isolante preta e ela continua a vadeação das janelas com esparadrapo branco. Seria engraçado, se não fosse uma cena impregnada de dor até a medula: estou ainda impressionado com o que vi. Irregular, mas absolutamente recomendável!

Wesley PC>

3 comentários:

Michelle disse...

Wesley,

Sempre leio seu blog, mas nem sempre deixo comentários. Hoje me senti na obrigação.

Bergman é meu diretor preferido, Allen, nem tanto. Gosto de um ou outro filme dele, mas qdo gosto, gosto de verdade. Quando soube que ele tinha um filme-homenagem a Bergman não aguentei de ansiedade para vê-lo. "Interiores" não parece filme de Allen, parece mais Bergman do que ele próprio, se bobear. Amo tanto esse filme que nem sei descrever o q sinto.

Em janeiro desse ano tive a oportunidade de comprar esse filme, o dvd é lindo. Se vc quiser, posso gravar e te mandar. :)

Beijos

Pseudokane3 disse...

Ôxe, quero sim. Fico mais do que lisonjeado: este filme é o que eu mais preciso dar de presnete para um amigo meu com bloqueio criativo. Por favor, manda, manda: este filme me arrasou! Lindo demais!

WPC>

Michelle disse...

Me manda seu endereço por email que eu faço uma cópia pra vc.

Beijos