sábado, 30 de abril de 2011

SOBRE MÚSICA SERGIPANA: O DISCO QUE ESTOU PRESTES A REPETIR PELA TERCEIRA VEZ SEGUIDA, NESTE INSTANTE...

É muito delicado tecer resenhas imparciais sobre produtos culturais sergipanos, no sentido de que, como o Estado é pequeno e os ditos “artistas” são quase todos conhecidos, tem-se um cuidado extremo em não ferir os brios de alguém com quem podemos nos encontrar em breve, em não ser vitimado por represálias pessoais contra opiniões desenfreadas. Ainda assim, vou correr este risco: descobri, no ‘blog’ de um estimado colega de curso, um ‘link’ para ‘download’ do disco “Aplausos Mudos, Vaias Amplificadas” (2004), do cantor e compositor Alex Sant’Anna e, putz, gostei tanto do que ouvi que preciso pôr para fora a minha satisfação diante desta reação positiva que surpreende até a mim mesmo!

Lembro que já tive a oportunidade de conferir um concerto do artista e, na ocasião, fiquei discutindo com alguns amigos se ele dispunha de sinceridade “eu-lírica” para compor algumas canções mais merencórias sobre relacionamentos amorosos em crise. O próprio artista deu-me uma resposta de mestre através da faixa 10 do referido disco, “Falido”: se eu tivesse que pagar por qualquer palavra falada, ia falar até falir (...) Não me obrigue a mentir, pois só minto quando tenho certeza absoluta que posso transformar em verdade”. Caramba, genial! Tinha que botar a boca no mundo e dizer isso: o disco é muito bom!

Antes de qualquer coisa, o esplêndido título do álbum, bem como a arte da capa, responderia por si só por muito da empolgação que tento transmitir aqui, mas algumas composições são realmente meritórias: a faixa 03 (“O Que Não É”), por exemplo, que eu não somente já conhecia como foi a força-motriz para que eu finalmente fosse em busca do tal álbum, é muitíssimo inteligente em seu jogo de antíteses que fazem muito sentido para os são-cristovenses como eu, que enxergam a cidade natalícia transformando-se gradualmente num palco banalizado de crimes:

“Travesseiro não é meio fio
Lixeira não é supermercado
Cola não é bálsamo
Bola não é brinquedo
FEBEM não é colégio
Tráfico não é emprego

Bala não é doce
Quem trouxe foi
Pra levar o outro ao chão
A vida não é bela, não

Carnaval não é solução
Tiroteio não é São João
Favela não é inferno
Mas é um sofrimento eterno”


Se eu já gostava bastante destes versos, ouvi-los no conforto de minha casa foi balsâmico, para ouvir um adjetivo espelhado pela letra da canção. Além dela, gostei bastante do tom crítico contido em “Estandarte de Ianque” (faixa 06), da promessa auto-cumprida em “Poesia de barro” (faixa 01), dos conselhos disponibilizados em “Antes de Seja Tarde” (faixa 07) e da supracitada corruptela do eu-lírico em “Prá Sempre Nunca” (faixa 05), cuja letra traz os seguintes versos em seu bojo: “Não prometa que vai me amar pra sempre/ Que nunca vai me amar/ Cuidado a imensidão é tudo/ A imensidão é nada”. Poxa, tudo a ver comigo, gostei muito!

É isso: sei que muitos vão suspeitar da confiabilidade desta resenha, visto que sou amigo pessoal tanto de pessoas que trabalham diretamente com o artista quanto de alguns de seus mais ferrenhos detratores, mas, digo-lhes com muita sinceridade: este disco merece um lugar acalentado em meu coração. Estou ouvindo-o pela terceira vez seguida e ainda quero mais! Quem diria... Sr. Alex Sant’Anna, de minha parte, ao menos neste caso, os aplausos estão amplificados!

Wesley PC>

Um comentário:

Samara Peixoto disse...

Compartilho do mesmo entusiasmo quanto as canções desse álbum, e as canções em geral do Alex Sant'anna. Espero que nunca nos deixe de agraciar com suas poesias musicadas. Simplesmente maravilho! Já fui viciada nesse álbum há alguns anos atrás. E voltei a ouvir dia desses... Não dá pra parar! ^^