sábado, 5 de março de 2011

A “SOLUÇÃO DE ERNEST HEMINGWAY”, NA PRÁTICA!

No belo filme francês e ginecofílico que comentei ontem, há uma cena em que dois mulherengos conversam sobre a vida. Um deles pergunta ao outro se ele lidaria bem com a velhice e com a impotência sexual, ao que este responde com um sorriso e com uma onomatopéia: “qualquer coisa, eu utilizo em mim mesmo a ‘solução Hemingway’ e, puf!”, disse ele, fazendo um gesto com o dedo apontado para a têmpora, como se fosse um revólver. Ele fazia menção ao derradeiro ato do escritor norte-americano Ernest Hemingway, que se suicidara aos 61 anos de idade.

Na manhã de hoje, assisti a uma palestra católica muitíssimo bem-sucedida sobre a necessidade de se fazer o bem ao próximo através da metáfora da lâmpada. “Quando nos iluminamos, iluminamos também a outrem”: dizia mais ou menos o palestrante do evento, que calha de ser justamente o irmão de um rapaz por quem nutro uma afeição cujo paroxismo pode até ser bem-intencionado, mas definitivamente não é católico. Enquanto ele falava, emocionado e crente, eu olhava ao redor, tentando interpretar como a sua platéia juvenil estava a receber as suas palavras de fé. Ele continuava: “não tenha medo se zombarem de vocês por serem católicos ou se te tacharem de loucos... Repitam consigo mesmos: ‘Jesus, eu quero ser luz!’”. E, nesta hora, eu pensava comigo mesmo: “hoje em dia, para ser religioso de verdade, a loucura e o suicídio surgem como alternativas sustentaculares”. Talvez fosse besteira, muita besteira (visto que o suicídio é um pecado grave e a loucura é uma doença não necessariamente voluntária), mas havia um resquício de coerência no que eu dizia a mim mesmo: é difícil ser religioso! É algo que requer a coragem de ser ridicularizado por aqueles que não entendem o que desejamos!

No caminho de volta para casa, tive o orgulho de conseguir conversar um pouco com o irmão do pregador e contei a ele algo que me chocou recentemente: o cineasta italiano Mario Monicelli, já elogiado aqui no ‘blog’ pelo modo bem-humorado com que enfrentava os problemas inevitáveis da vida, suicidou-se no dia 29 de novembro do ano passado, aos 95 anos de idade! Pulou da janela do quarto andar do hospital em que estava internado para cuidar de um câncer terminal de próstata. Quem assistiu a qualquer filme prazenteiro deste genial cineasta, sabe o quanto esta última atitude (quase absurda) é prenhe de sentido e coerência discursiva, mas não há como não se espantar com o exagero tragicômico do gesto: acabar com a própria vida depois de ter sobrevivido a mais de 34.675 dias! Juro que sou pessoalmente contra o suicídio, mas pensando no que Ernest Hemingway e Mario Monicelli fizeram e na infeliz impossibilidade de pôr em prática, em escala sociológica mais ampla, as nobres sugestões religiosas que recebi hoje, resta-me esperar que a loucura não me aflija ainda, que eu ainda goze de um pouquinho de lucidez antes que ela me seja inevitável. Ou até que a eutanásia seja legalizada...

Wesley PC>

2 comentários:

Pm Lancaster Vince disse...

Meu querido Eu não poderia deixa de falar sobre o que penso sobre o suicídio. Tudo pode mudar inclusive isso sobre meu pensamento para com o ato de se auto-aniquilar. Quase todos os meus autores preferidos se mataram. Na minha modesta opinião o suicidar é algo grotesco, algo maléfico contra si próprio, não que ninguém seja bom sempre, mas é uma agressão nefasta, Afinal o final da vida pode vir naturalmente. Acredito em Deus. A vida não é só essa. Tenho fé e nunca mais pensei que um dia diria ISSO depois de ler o anti-cristo de frederick nietzsche há 3 anos e ver tantas controvérsias, maldades, traições, perseguições. Mas hoje quero acreditar em deus e ter fé. e se há contradições e você sabe bem que há É necessário estudo, reitero é necessário estudo sobre o assunto, enquanto isso a filantropia abre meu caminho.

Pseudokane3 disse...

A filantropia ABRE o nosso caminho, querido. As tentativas de filantropia, ao menos. E sim, concordo contigo acerca do suicídio e sim, creio muito em Deus, muito, cada vez mais. Creio e amo!

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