sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

“A MORTE É VERMELHA E DEPOIS AZUL”... (APRENDENDO COM QUEM JÁ APRENDEU COM HONORÉ DE BALZAC)

“A infelicidade é uma espécie de talismã cuja virtude consiste em corroborar nossa constituição primitiva: ela aumenta a desconfiança e a maldade em certos homens, assim como faz crescer a bondade dos que têm um coração excelente” (página 67 da edição de bolso de “O Coronel Chabert”, lançada pela L&PM).

Acabo de acordar de um sono vespertino de 4 horas, única medida não-farmacêutica de que eu dispunha para aplainar a dor violentamente unilateral que me assolava desde que terminei de ler “O Coronel Chabert”, escrito por Honoré de Balzac em 1832. É um romance demasiado curto, no qual um velho soldado aparece numa cidadela francesa reivindicando ser um soldado dado como morto há quase 20 anos. Sua mulher casou-se novamente, todos o destratam atualmente por causa de sua penúria e feiúra (decorrentes dos severos ferimentos de guerra que sofrera) e um advogado aceita a sua causa honorífica: ele não quer fortunas, mas apenas o direito de ser novamente quem é.

Sendo parte do grande compêndio de personagens que foi reunido pelo próprio autor sob o título de “A Comédia Humana”, “O Coronel Chabert” é um de seus romances menos conhecidos, mas isto não implica que é genialmente triste e realista: é genialmente triste e realista! Tanto que, mesmo sendo um romance muito curto, precisei de longas pausas entre um infortúnio personalístico e outro, enquanto rememorava as mais do que convenientes feições de Gerard Depardieu no papel-título de “Coronel Chabert – Amor e Mentiras” (1994), portentosa versão fílmica do livro, realizada pelo conceituado diretor de fotografia francês Yves Ângelo, vista por mim faz tempo. Lembro que não entendi as miudezas sociais do filme à época, mas, no plano romântico-dramático, como me inquietou aquela estranhíssima e pertinente definição do que seria a morte...

Segundo li numa biografia rápida do escritor Honoré de Balzac (1799-1850), seus personagens trágicos não raro “se constroem e se destroem na insana busca por ‘ouro e prazer’”. É mais ou menos o que ocorre com os personagens que circunvizinham o personagem-título desta pequena obra-prima literária, ao qual o autor reserva um destino mais digno, prenunciado por um apotegma que, com certeza, seguir-me-á até o fim dos dias: Mas o que podem os infelizes? Eles amam, nada mais”. Anotarei isto na agenda como sendo mais uma preciosa lição aprendida. E minha mãe preparou sopa!

Wesley PC>

Um comentário:

tatiana hora disse...

e como me identifico!