domingo, 14 de novembro de 2010

“TU ÉS INCORRIGÍVEL!”, DIZ UM CRUSTÁCEO À APAIXONADA SEREIA

Revi, na manhã de hoje, o clássico recente “A Pequena Sereia” (1989, de John Musker & Ron Clements) pela terceira vez. Não tenho uma relação tranqüila com este filme (conforme pode ser antevisto aqui), mas uma nova perspectiva espectatorial me pungiu nesta terceira visão: entrei na casa de uma vizinha para conversar com seus filhos, quando vejo uma criança de 3 anos prostrada diante de uma tela de TV, vendo justamente o filme agora comentado. Ainda estava no começo e, repentinamente, me vi seduzido pela ambigüidade de todo o contexto. Se aquele era um filme destinado ao público infantil – ou, pelo menos, estava a funcionar assim para quem permitiu que aquela criança de 3 anos ficasse tão perto da TV para acompanhá-lo melhor! – como estaria sendo processada na mente daquela pequena espectadora a informação de que Ariel estava “amando”?

Para quem não viu o filme: Ariel é uma princesa marítima que, ao contrário de suas irmãs mimadas, não se interessa muito pelo ócio da côrte e, ao invés disso, prefere colecionar objetos humanos atirados ao mar (leia-se: lixo transformado em fetiche). Numa de suas coletas objetais, depara-se com um belo rapaz num barco e deseja beijar-se com ele, mas, para isso, precisa tornar-se humana. Seduzida que foi pelos golpes sujos da bruxa Úrsula, ela consente em sacrificar a própria voz para ter pernas no lugar de nadadeiras, mas sua voz é justamente o elemento que fez com que o humano ficasse apaixonado por ela. “Como vou conseguir conquistar o homem que amo se ele não pode ouvir minha voz?”, pergunta Ariel à bruxa, que responde, mostrando a bunda volumosa: “todo homem sabe interpretar outras formas de linguagem corporal”. O que será que a criança de 3 anos extraiu a partir desta argumentação?!

Segui em frente e novos problemas éticos eram atirados como meros chistes roteirísticos diante da platéia, como, por exemplo, a complicada seqüência em que o siri Sebastião tenta se esquivar de um cozinheiro humano que quer servi-lo como comida no jantar em que Ariel é convidada. Interrogação nº 1: depois de convertida em humana, ela achará normal alimentar-se dos peixes que, até então, eram seus súditos e irmãos? Interrogação nº 2: é lícito rir de um complicado dilema alimentício como este? Interrogação nº 3: “o beijo do verdadeiro amor” que Ariel precisa dar em seu amado e que não é “qualquer beijo” – não soa fisiologicamente anacrônico para o entendimento infantil, visto que enseja um eufemismo pré-sexual?

E eu seguia a escandalizar-me diante da sessão, mas, puxa, como o filme é bom! Como ele fica ainda melhor, mesmo contraditório e dúbio em diversas seqüências, à medida que é revisto! Porém, imbuído de um sentimento de protecionismo infantil que eu estava, perguntei à guardiã da criança se não era melhor retirá-la de tão perto da TV, visto que ela estava há mais de 5 horas ininterruptamente diante do aparelho. Como resposta, ouvi: “é melhor assim. Pelo menos, ela não fica malinando!”. Eis a geração de crianças que os futuros professores de História tentarão educar!

Wesley PC>

7 comentários:

Debs Cruz disse...

Rapaz, às vezes eu uso a TV pra descansar um pouco de crianças.
Duas horinhas na frente da TV,
assistindo coisas legais,
nunca me fizeram mal.

Meu pai sempre teve o bom costume de assistir coisas boas
e acabou passando isso pra gente desde cedo
(junto com as músicas)
Aline é que via Tv pra caraleo.
Ela não gostava de brincar, como eu.

Gomorra disse...

(risos)

O engraçado (ou trágico) é que a mulher que disse isto em relação à não-malinação da guriazinha se antecipou em dizer: "olha só, Wesley, ela é que nem tu, não sai da frente da TV!", ao que dois de seus filhos concordaram...

OK, ok...

Eu até que gostava de brincar, quando me deixavam... Oh, infância cruel esta minha! Mas é minha, é o que tenho, fazer o quê?

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Gomorra disse...

...Ou a que tive, sei lá...

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Pseudokane3 disse...

E, em resposta a um amigo virtual, que me perguntou que eu não havia identificado alguma referência à primeira menstruação da protagonista no filme, tive que responder:

"Conforme eu explico no texto, sempre tive raiva da punção xenofóbica do pai dela, nunca a entendi como heroína, já que irritava-me com sua saliência desobediente. Hoje, porém, posso não ter visto a referência explícita à menarca, mas... Aquela obsessão passional, diante de uma guria de 3 anos, me deixou preocupado: o filme é muito sexual, há um cheiro de hímen à beira do rompimento no ar e, se eu costumava me identificar com o burocrata Sebastião, desta vez foi o fervor ultra-romântico dela quem me elevou... Disney tem este poder, né? Mas o debate está aberto!"

Faço minhas as minhas palavras!

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Resgate Social disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Resgate Social disse...

Há várias referências a passagem da adolescência em direção à mulher. A aparição de conchas abertas (um clássico símbolo da vulva);o personagem 'Linguado' é o personagem masculino infantil, que a prende ao mundo de menina,e a tenta convencer de que a superfície (o mundo adulto) não é bom.A bruxa (outra figura simbólica, no caso aqui o da mãe ausente), que tenta por todas as maneiras impedir que a menina vire mulher e assim, assumir o lugar que outrora fora dela.

Há varios outros símbolos, mas eu não irei me alongar muito, porque ninguém lê mais do que 5 laudas nos blogs.

Peterson Alan Boll

14 de novembro de 2010 18:50

Pseudokane3 disse...

(risos)

Eu leio.
E acredito nestas importantes ressalvas freudianas ao filme (risos)
E olha que nenhuma das famosas acusações subliminares vinculadas ao filme foram destacadas, como a famosa torre fálica (risos). Agora fiquei com vontade de revê-lo pela quarta vez. E juro que saí mais do que enraivecido na primeira sessão (risos)

Ai, ai... Hipnose disneyana!

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