quarta-feira, 17 de março de 2010

PROLEGÔMENOS DA MESA INVERTIDA

Estava tentando manter isso em segredo, mas... Estou fazendo um novo curso de graduação na UFS! E, ontem, às 11h15’ da manhã, estava assistindo à primeira aula deste novo período, com uma professora metódica e muito inteligente, de nome Messiluce Hansen. Consumia com prazer redobrado (ou reincidente, como ela preferiu me chamar) suas informações deslumbradas e apaixonadas sobre o que é o Jornalismo, numa turma de calouros, quando uma trupe de veteranos invadiu a sala, para protestar sobre a decadência institucional da Universidade, sobre as más condições de estudo a que temos que nos submeter hodiernamente, sobre “a falta de contato dos universitários com as pessoas da comunidade lá fora” (sic) e coisas do gênero. Conhecia e era amigo de quase todos os meninos fantasiados de palhaços no protesto divertido, mas não sei se concordei com sua apresentação de argumentos. Eles diziam que todos nós estávamos prestes a nos tornar palhaços dentro deste circo de oportunidades limitadas e falaciosas que atende pelo nome de Universidade Federal de Sergipe e pediram para que os estudantes ficassem de pé e batessem palmas num ato simbólico para “apagar o fogo” do ensino público hodierno. Citavam personagens a que nós, estudantes, tínhamos que nos submeter aqui dentro; o mágico (obrigado a conciliar horários de aula e trabalho de forma fantástica), o equilibrista (que ficava num eterno “cai-não-cai” em relação às suas obrigações pessoais e morais), o domador (que impõe, que dá ordens, que adestra), e, obviamente, os palhaços, que todos nós iremos nos tornar, mais cedo ou mais tarde. Distribuíram narizes de palhaço aos presentes e saíram...

Quando eles entraram, a professora, atual chefa do Departamento de Artes e Comunicação (pura coincidência?), falava sobre liberdade de expressão. Quando eles saíram, o assunto voltou à tona, agora com propriedade, visto que ela pôs em pauta a legibilidade representativa dos estudantes enquanto classe organizada, elogiou o papel do Diretório Acadêmico dos Estudantes e citou frases célebres de Thomas Jefferson e Voltaire, que, segundo ela, são os pilares marcantes da liberdade de imprensa. Estava havendo ali um verdadeiro embate diplomático entre a polidez institucional e o espaço democrático deliberativo, ambos os termos delicados quando aplicados na realidade, e sobre os quais nutro uma antipatia pós-conceitual. O embate ainda mais polêmico entre os cânones do mercado competitivo e a exigüidade sustentacular oferecida pela universidade era secundarizado diante de nossos olhos e ouvidos, a fim de que os calouros não ficassem decepcionados com o curso para o qual ingressaram, em que a necessidade de diversificação conteudística e de públicos-alvo é subsumida à categorização tipificada que meus amigos cômicos descreveram. “A base do jornalismo é a fofoca”, dizia a professora, enquanto eu pensava no porquê de eu ainda discordar do modo como os meus amigos de curso protestaram, não obstante eu não ser tolo para insinuar que eles não têm razão. A mesa em que a professora estava sentada ficou invertida depois que a trupe foi embora? Uma metáfora do que aconteceu ali? Os meninos queriam apenas que nós ríssemos um pouco, disseram. Eu não sorri, nem bati palmas. Ao invés disso, fiquei admirando e fotografando o colega veterano que ficou atrás da sala, registrando o momento. Estou de volta à base da Universidade. Fazer o quê?

Wesley PC>

3 comentários:

Reuel Astronauta disse...

Na foto parece um culto evangelico...hehe Tdo mundo de mãos levantadas e de olho fechado.

www.movimentotorto.com

Pseudokane3 disse...

E o efeito foi justamente este...
E o que mais me incomodou, na verdade, Reuel querido! Os protestantes criticavam as posições ditatoriais de profesosres identificados como "domadores" e os alunos eram levados a levantarem os braços, baterem palmas, repetirem supostos mantras de protesto, etc., etc....

Eu não queria fazer aquilo, me sentia oprimido pela discordância protestante, mas eles intimidavam-nos através da diplomática escusa "quem não quiser levantar o braço, não precisa"... Foi estranho. Não sabia que partido tomar na situação, visto que achei a dicotomia espúria, mas...

Viva o evangelho, fazer o quê?

WPC>

tatiana hora disse...

eu não faria um gesto sequer.
e eles me chamariam de reacionária.
mas estou chorando hidratante monange pra isso!