sexta-feira, 19 de junho de 2009

‘LE GRAND MICHEL LEGRAND’!


Assim que eu cheguei ao Teatro Tobias Barreto e deparei-me com este chiste aliterativo na programação do concerto, suspeitei que a platéia forçasse um deslumbre insincero diante do grande artista que iria se apresentar em alguns minutos. Ao perceber que uma parcela considerável do público possuía mais de 60 anos aparentes de idade, tornei-me um pouco mais confiante: “eles respeitarão o evento”, pensei comigo mesmo. O aviso do teatro dá o sinal que o concerto está para começar. Desliguei o celular (com uma pendência pessoal martelando o meu cérebro) e sorri quando ‘le grand Michel Legrand’ entra no palco, gracejando algo, demonstrando que o mesmo bom humor da década de 1960 continua ativo. Fiquei contente. Senti que seria uma noite feliz!

A primeira música executada eu não conhecia: era a trilha sonora do filme obscuro “Estação Polar Zebra” (1968, de John Sturges). Não vi o filme e, talvez por isso, achei que a trilha sonora do mesmo não funcionasse descolada das imagens. Na segunda música, que o autor alegou ter composto “some years old ago” (risos), Michel Legrand usa sua voz encantadoras para pronunciar palavras como amizade e melancolia. Gostei muito. A terceira parece que foi tema de um filme do Claude Lelouch que eu não reconheci de imediato e, na quarta, eu senti um estranho enfado: o concerto estava demasiado burguês. Detalhe: na mesma hora em que fiz este comentário com meu amigo Ferreirinha, uma grande amiga virou-se para mim e comentou: “eu achava que tu não gostasses de música burguesa não, Wesley!” (ri muito). Em seguida, a convidada especial Patty Ascher entrou no placo para cantar “What are you Doing the Rest of Your Life”. A letra era até bonita, mas algo não me fez gostar da interpretação da cantora. Achei demasiado pequeno-burguesa. E Michel Legrand pedia um pouco mais de retorno em seu microfone. Estava gostando do evento, mas não era o que eu tanto esperava...

“I want to see your face in every kind of light
In fields of dawn and forests of the night
And when you stand before the candles on a cake
Oh, let me be the one to hear the silent wish you make
What are you doing the rest of your life?
North and South and East and West of your life
I have only one request of your life
That you spend it all with me
All the seasons and the times of your days
All the nickels and the dimes of your days
Let the reasons and the rhymes of your days
All begin and end with me”


De repente, a harpista Catherine Michel entra no palco. Com suas mãos de fada, ela ajuda o artista a encetar “Je ne Pourrai Jamais Vivre Sans Toi”. Lembrei do contexto em que conheci a canção e não resisti: esboços lacrimais manifestaram-se em meus olhos, ao passo em que meus companheiros de platéia admitiam vários orgasmos estéticos seguidos. Epifania! Foi lindo!

Intervalo. Saímos, bebemos água, fomos ao banheiro. Precisávamos nos recuperar do choque. Ao voltarmos, Michel Legrand executou três ou quatro canções jazzísticas, com poucos instrumentos no palco. O baterista da Orquestra Sinfônica de Sergipe era de uma simpatia e esforço tremendos. Ficamos brevemente seduzidos por seu ótimo desempenho ao lado do mito francês. Ai a fada Catherine Michel volta para seu posto instrumental e arranca novas lágrimas de minha alma ao me fazer recordar vividamente de “Verão de 42/ Houve uma Vez um verão” (1971, de Robert Mulligan). Olhei para a platéia e percebi que não era o único. Vários daqueles senhores emocionavam-se de verdade com a música terna, nostálgica e, se considerarmos o efeito indelével do tempo, um pouquinho cruel. Epifania novamente! Em seguida, a canção-tema de “Yentl” (1983, de Barbra Streisand). Epifanias se seguiam, se acumulavam, nos perturbavam, nos possuíam... Todas as canções desta segunda metade do concerto foram admiráveis. Até mesmo a trilha sonora de um filme televisivo sobre futebol americano exalava sublimidade! Sentimos o céu naquele teatro. Pessoas aplaudiam de pé, não para se exibirem, mas porque Michel Legrand foi exitoso em arrancar lágrimas sinceras. Foi lindo! Ferreirinha gritava ao meu lado: “perfeito! Perfeito!”. Sentíamo-nos leves, quase flutuando. Se eu já era fã do Michel Legrand, agora o respeito quadruplicou. Gênio! Senti-me vivo no interior daquele teatro e fora... e sinto-me vivo agora!

Wesley PC>

3 comentários:

Gabriela disse...

eu pensava que as lagrimas so saiam dos meus olhos..eu jurava que vc estava impassivel. mas depois de ler o que vc escreveu, mais uma vez me impressiono com a sua habilidade de fruir arte.
vc é de verdade. não é uma construção.
nunca se esqueça disso, meu querido amigo.

te amo sempre, measmo quando vc inssiste em dizer que faço coisas horriveis...

Anderson Luis Ninovon disse...

mas o perfeito tava la ? ferrerinha tava chamando ele ... hahahaha

Pseudokane3 disse...

...E tu achas que, se o Perfeito estivesse lá, eu ia deixar que usassem o adjetivo DELE para re referir a outra pessoa, por mais que esta merecesse? (risos)

Né não, brincadeirinhha. Nós chamammos o Maurício, mas ele esqueceu o celular no silencioso, logo... Esqueceu, perdeu!

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