terça-feira, 23 de junho de 2009

“ELE NÃO CONCORDAVA COM O COMENTÁRIO, GERALMENTE ATRIBUÍDO A EX-VICIADOS, DE QUE É MUITO MELHOR FICAR DOIDÃO SEM AS DROGAS DO QUE COM ELAS”...

Assim diz o personagem calvo de Johnny Depp em “Medo e Delírio” (1998), de Terry Gilliam, uma acumulação de cenas lisérgicas e surreais em que dois ditos amigos, um jornalista e outro advogado, perambulam pela cidade de Las Vegas, entupindo-se de maconha, cocaína, mescalina, barbitúricos, anabolizantes, andrenocromo, o que aparecer pela frente... Quase não tem estória, trama propriamente dita: é um amontoado infindo de delírios, muitos deles ‘bad trips’ ao som do Jefferson Airplane, em que os poderes das palavras “surrealismo” e “psicodelismo” meio que se anulam. Explico: o Terry Gilliam é tão genial em sua adoção cotidiana do surrealismo [vide maravilhas como “Brazil, o Filme” (1985), “O Pescador de Ilusões” (1991) ou “Os 12 Macacos” (1995)] que justificar a mesma através das substancias psicotrópicas pareceu redundante, da mesma forma que ocorreu no modorrento “Tideland – O Mundo ao Contrário” (2005), em que os delírios surgiam da psicose de uma criança abandona pelos pais mortos por overdose. Ainda assim, para além de seus equívocos e ritmo irregular, não tem como não se identificar com o filme, visto que, em Gomorra, eram comuns comportamentos ditos “extremistas” quanto os dos protagonistas (Rafael Coelho que o diga!) e a moral do roteiro é pungente: a geração ‘paz e amor’ tornou-se órfã e agora aquilo que conhecemos como drogas servem como indicadores de ‘status’ para a execrável geração ‘yuppie’.

Tanto não é verdade que, por pura coincidência do destino (?), puxei aleatoriamente o álbum homônimo de The Libertines (2004), ao final da sessão do filme, banda esta que foi definida por um erudito amigo metaleiro como sendo um indicativo crasso do “fim dos tempos”, dado que, ao contrário do que havia nas décadas de 1960 e 1970, quando cantores que gostávamos usavam psicotrópicos para fazer boas músicas, eles fazem música (vendável) para adquirirem drogas. São conhecidas, por exemplo, as polêmicas banais envolvendo o vocalista Pete Doherty, que chegou a vender sua guitarra para comprar cocaína. Pelo sim, pelo não, o disco é bacana e deveras sintomático e, apesar de o carro-chefe ser “Can’t Stand me Now” – que eu não conhecia quando a banda se apresentou, com alvoroço, num programa da Rede Globo de Televisão – minha canção favorita é a última, “What Became of the Likely Lads”, cujo videoclipe é nostalgicamente belo e cruel e cuja letra fala justamente sobre o conturbado relacionamento pessoal entre os principais integrantes da banda. Mais sintomático que isto, impossível!

Wesley PC>

2 comentários:

Leno disse...

Eu gosto, pena que acabou a banda

Pseudokane3 disse...

Não tinha como ter demorado mais do jeito que eles estavam (risos)... E eu gosto também!

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