quinta-feira, 21 de maio de 2009

“ALEGRAI-VOS, SERGIPANOS!”


“Um filme que traz à tona a estória de um mito. Um mito que se confunde com a própria história”, diz a divulgação do filme. Será mesmo?

Criticar o curta-metragem “A Eterna Maldição do Cacique Serigy” (2009, de Alessandro Santana, Bruno Monteiro & Mauro Luciano), visto ontem ao lado de meus amigos historiadores de Gomorra, será uma trabalho fácil ou difícil? Conheço e gosto pessoalmente dos três realizadores envolvidos e, se por um lado, foi-me difícil confessar de imediato que desgostei da obra, por outro, já fora advertido por um deles que eu não gostaria mesmo. Não somente conheço pessoalmente os tais realizadores, como também conheço algumas de suas idiossincrasias e discordo de algumas delas. Ou seja, o filme não me surpreendeu em nenhum momento. Sabia o que ia encontrar... e encontrei!

Antes, uma pequena sinopse: numa terra ainda inexplorada pelos comerciantes brancos europeus (supostamente, no século XVI), vemos personagens representando indígenas. Estes respeitam a natureza, ingerem fumos oriundos de plantas nativas e interagem ponderadamente entre si. Até que, um dia, surge um estrangeiro, montado num cavalo. Este prova do doce pecado da gula na terra que agora considera “um novo Éden” e estupra (ou inaugura a prostituição especular?) uma nativa ao som do hino sergipano, que logo se converte numa marchinha de carnaval. Ao saber do acontecido, o iracundo personagem-título consulta o pajé de sua tribo, a fim de saber como agir, como vingar a desonra de seu povo. Depois de uma luta vã com o invasor estrangeiro, o cacique revoltado lança uma terrível maldição sobre a terra em que vivera até então, dizendo que, a partir de então, nada mais prestará naquele lugar, que se tornará opaco, infértil, provinciano. Na trilha sonora, “O Cordão dos Puxa-Saco”. Na tela, uma indagação conclusiva: “é o fim!”

Aspectos a serem investigados a partir desta sinopse: conhecendo os realizadores como eu conheço, lamento reconhecer mais uma vez nesta obra um aspecto que pode ser prenhe de sentido, mas com o qual eu não concordo: esta tendência insistente em difamar a precariedade e a auto-desvalorização (cultural e socioeconômica) de Sergipe, num ímpeto que parece crítico, mas que, ao ser repetido ‘ad extremis’, torna-se vicioso e inocuamente rabujento. Não sei se minha sujeição pós-pós-moderna faz com que eu submeta-me ao pauperismo típico da “terra atrasada” em que vivo, mas não creio que as intenções dos autores ao despejarem suas reclamações em forma estética pós-cinemanovista funcionem a contento. Motivo 1 (detectado na pré-estréia de ontem): o público-alvo do filme está muito mais interessado em reconhecer seus amigos e conhecidos na tela do que entender que ali se tratam de personagens (quiçá alegóricos em relação à História de nosso Estado). Motivo 2: as citações a filmes clássicos de Joaquim Pedro de Andrade e Glauber Rocha não surtem efeito em audientes cujos arcabouços referenciais repousem num “presente contínuo” infelizmente consentido. Motivo 3: se pensarmos direito, nada do que foi visto na mal-projetada tela da Sociedade Semear é novo: misturar Mozart, Carmen Miranda, colorido tropicalista e História sumária é talvez uma fórmula em desgaste, que instaura efeitos cômicos involuntariamente disfuncionais, conforme detectados nas reclamações de pessoas na platéia acerca da má sincronização sonora, de uma montagem academicista e pretensiosa e de outros “defeitos” técnicos-formais que, conhecendo as aventuras ‘udigrudi’ dos realizadores, podem e devem muito bem serem intencionais.

Supondo que eu encontre novamente com Alessandro Santana e este me pergunte agora o que eu achei do curta-metragem, direi o seguinte: valorizo a sua produção, no sentido wellesiano de que “toda obra é boa, na medida em que exprime o caráter do homem que a concebeu”, mas arriscar-me-ia a sugerir, no âmago de minhas mais sinceras boas intenções, que ele seria muito mais fecundo se levasse à frente o que pretendeu no título de uma obra prévia e realmente desconfortasse a platéia. Afinal de contas, nos dias acríticos de hoje, não há mais espaço para crítica sem perturbação verdadeira – e, com certeza, usar óculos escuros na escuridão de noites chuvosas não é um recurso sinceramente aliado à constatação!

Wesley PC> (prototipicamente)

Um comentário:

Mauro Luciano de Araújo disse...

Alô, Wesley

Sempre admiro sua capacidade formal de elaborar uma crítica. Mas lembremos Bazin, tão prezado no nosso passado, quando ele diz que o trabalho do crítico é de prolongar a obra, no momento em que ele escreve sobre ela. Eu arriscaria dizer que aqui na sua crítica, você conseguiu fazer esse prolongamento de um modo involuntário.

O que, pra mim, foi uma ironia do destino.

Permita-me discordar de alguns de seus pontos levantados, já que acho, também, que o filme A Maldição... foi muito mais um manifesto da bobagem provinciana que uma “obra cinematográfica”.

Veja: sobre motivo 1, o “público alvo” do filme não foi uma platéia de amigos, ainda que na exibição só eles tenham aparecido. Além do mais, esse termo é usado por publicitários e ou pesquisadores da recepção fílmica, quando a vontade do produtor foi a de abranger determinada camada da sociedade, ou foi tal e tal platéia que freqüentou e viu o filme. Ali é também um vídeo, e futuramente estará na Internet. Ou seja – o “público alvo” é absolutamente fragmentado, e diria, abstrato.

Sobre o motivo 2, novamente vem o público, mas dessa vez como o inculto e desapercebido em história do audiovisual brasileiro. Seu motivo 2 foi uma evidência de que o “público” procurado pelo filme não é o que ele até agora alcançou. E ele vai alcançar? Diria que isso não é problema – o filme foi feito, agora é partir para outro trabalho, outro projeto. Os audientes virão com o tempo, na medida em que essas camadas de significados forem sendo percebidas.

Já sobre o motivo 3, o mais “teórico”, ou o que mais fala sobre a estética do filme, concordo plenamente. Mas há algo mais que essa falta de novidade do udigrudi, ou do tropicalismo. Há a interpretação e movimentação dos personagens em uma cena perfeitamente sergipana, aracajuana. E não são aqueles velhos nomes, atores e atrizes, que sempre estão em publicidades de G Barbosa, Cosil ou coisas do gênero. São imagens coloridas, irônicas, sarcásticas, e “fora do comum” do audiovisual daí. A fórmula pode ter sido antiga, ultrapassada, não inovadora – mas é aí que está o diálogo com uma maneira de se visualizar que não é, e nem nunca foi inovadora, porque não há no que inovar. Se isso pareceu entediante, é uma coisa. Mas se a ânsia por algo brilhante, moderno, surpreendente, “na moda”, não chegou a ser sanada, aí peço desculpas... mas não era mesmo essa a intenção.
=]

Abraços, WPC

Mauro